quinta-feira, junho 07, 2007

Contos de Quinta...

Continente
Perdido


Todo homem é uma ilha cercada de silêncio e ansiedade. Uma ilha em preto e branco onde despontam vívidos, na exclusividade das cores, mil e um corais de brilhos e tons sedutores tanto quanto mortalmente cortantes, que tingem os pés de vermelho sangue e lavam a sal as feridas do caminhante.

Todo homem é uma ilha e mira a linha do horizonte. Até onde alcança a vista vê traçado, entre dois pontos flutuantes, uma reta de expectativas ao longe, inalcansável, inatingível, utopicamente eqüidistante do nada e do lugar nenhum. O homem que nela habita olha e, sem sequer molhar os pés, deseja ultrapassar o mar pois sente e sonha seu o continete para além.

O homem se prosta ao sol da ilha e engrossa a crosta escarpada que se desenvolve recobrindo sua pele ultra-sensível. Ele pensa proteger-se, com os sedimentos de sua armadura, do sol e da chuva, dos homens e deuses, conselhos e mandamentos, do sim e dos nãos, enfim, do amargo e mal-cheiroso monumento da vida, cujo sentido só se completa e compreende pelo seu perder cotidiano.

Todo homem é só espinho circundado de perfume e justamente por isso sente medo da aproximação alheia. Ele sabe que o olfalto engana, pois que inebria e carrega consigo um corpo em direção a outro, quando então mesclam-se os odores e a apoteose conjunta declina, mortalmente, para um sem número de perfurações mútuas. Ao final, apenas o cheiro de incipiente putrefação na carne morta.

Todo homem teme, e sofre, e treme, e sonha e traz no cenho a trama de uma vida e o trauma de seu andamento. Na solidão de seus sentimentos, ansioso por compartir, ele cala para que também não ouça e fantasia pelo simples medo do óbvio. Ele isola o mundo de si e deixa partir, dia-a-dia, o pouco que resta de sua beleza nativa, cativa dos trâmites e exigências da terra firme que se encontra no além-mar dos seus sonhos.

O homem se mostra e chora defronte ao espelho d’água onde vê refletidas mil e uma imagens de si mesmo, que brilham no canto escuro de mil e uma outras ilhas igualmente solitárias em suas mil e uma dores particulares tão comuns. O homem brilha em outras ilhas, mira outras linhas e se crê a milhas quando, na verdade, faz de abismo o centímetro que dele separa tantos outros igualmente crentes de uma solidão que consiste, ao final, na única fronteira de um único continente. Talvez perdido para sempre...

19 comentários:

Roberta disse...

Meu Deus do céu, de onde você saiu?! Que arrepeio...

SAMANTHA ABREU disse...

cara...
fico cada vez mais fã.

adorei

Fátima disse...

Parabéns pelo seu blog. Gostei muito, inclusive das músicas que ouvi. Favoritei pra voltar mais vezes.

Vivi disse...

Fantástica essa crônica. A melhor que já li no seu blog até agora; Prosa poética, com ritmo: gosto muito desses jogos sonoros com as palavras ("Todo homem teme, e sofre, e treme, e sonha [...] O homem brilha em outras ilhas, mira outras linhas e se crê a milhas...")
PARABÉNS!

marcos disse...

Rapaz, que deprê... mas poético e magistralmente escrito! Um dos melhores.

Abração.

Tamires disse...

SUBLIME.
Esses brilhos sedutores mortalmente cortantes foi a forma mais linda de descrever os obstáculos que nos ensinam no correr da existência.

SR. LYRA VC É D+!

Douglas disse...

Muito bom, textos com significados são sempre bem vindos, não aquela porcaria de sempre onde blogueiros só falam de o que fez no dia... eu não gosto.

Esse texto ai foi feito para o dia de hoje!

depois do merchan no meu orkut eu vim, hehehe

t+


by www.portalnerd.blogspot.com

The Immature Girl disse...

"Ele isola o mundo de si e deixa partir, dia-a-dia, o pouco que resta de sua beleza nativa"

Me vi nessa frase... às vezes guardamos o que temos de melhor pra nós mesmos...
bem egoistinha, hihihihi...
mas se não nos lembrarmos, podemos perder nossas "coisas boas".
bjus e bom findi!

fabrício fortes disse...

uau!
o existencialista lyra..
ficou muito bom, cara
valeu a leitura e sobrou troco!

walter fripp disse...

olá.. estou passando para conhecer esse incrível lugar por indicação do fabrício fortes, e só posso te dar os parabéns, cara.. tá o suco isso aqui.

*¢£@üD!NhA''' disse...

Não decepciona; só transparece...

Tomou todo o magistral e só me sobrou o chulo:

FODA CARA!!!!

Henrique disse...

Todo o homem é uma ilha
E algumas viagens naufrágio.
Ainda que viver seja impreciso,
Navegaremos por entre os recifes
Buscando aportar em nós mesmos
Mesmo quando não houver faróis
No lado mais perigoso da alma.

Todo homem é uma ilha
Que se une aos outros homens
Em sua natureza subterrânea.
O vento soprar irá soprar.
Tentaremos a longa viagem?
Não é mar ou solidão que nos separam
É só distância.

Içar velas!
Todo leme a estibordo!
O coração comandará este navio.

thaís disse...

Nossa, lindíssimo Sr. Lyra, trabalhou poeticamente no feriado!

Rosa disse...

Olá Diogo Lyra, cheguei no seu blog por mero acaso, mas tendo me deparado com este texto percebi que não foi sorte, mas destino. Não posso nem lhe dizer o quanto me emocionou e o quanto ele é verdadeiro, um deleite poético que não se encontra igual por aí - ao menos não entre indivíduos tão jovens como você. Rara beleza de alguém com rara sensibilidade...
Meus sinceros parabéns!

SAMANTHA ABREU disse...

fico tão feliz por ter te despertado alguma idéia...

não vou dizer nada sobre esse conto, porque estou certa de que vc sabe o que acho.

mas olha só, essas me causaram arrepios:

"Todo homem é uma ilha cercada de silêncio e ansiedade"

"Todo homem é só espinho circundado de perfume e justamente por isso sente medo da aproximação alheia"

"O homem se mostra e chora defronte ao espelho d’água onde vê refletidas mil e uma imagens de si mesmo"


... Diogo... e que atirem a primeira pedra...

beijos e obrigadaaaaaa

Tchellonious disse...

Engaiolado na pasta
Setecentos e quatro
A comoção me alça
Ao som de pássaros

Éramos Pangéia
Uma lírica idéia
Antes das ilhas
Autônomas e ridículas

Após agora
Ignoro a bóia
Tanto para o almoço
Quanto para o socorro.

Anônimo disse...

Sensacional... Mestre Lira.

4rthur disse...

já ia dizer que é, como alguém disse acima, um dos mais fodas (e existenciais) contos que você já publicou aqui. Mas teve outra coisa que percebi e também achei do caralho: o fato dos teus contos estarem inspirando pessoas a psicografar suas subjetividades através de palavras lyricas, como nos comentários desse conto.

Ou seja: uma leitura para além de prazerosa: inspiradora.

dida disse...

Dig, é incrível sua capacidade de ler e a alma humana e reproduzi-la em palavras... Essa prosa em verso atingiu o fundo da alma, sobretudo sabendo em que motivo se inspirou... Tu é foda mesmo!
Mas, não posso deixar de dizer e registrar aqui que ler a poesia do Pakkos inspirada no teu texto me brindou com uma emoção muito forte!
Dois homens, duas ilhas, um sentimento!
Beijo pros dois!