quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Contos de Quinta...
Da famosíssima série "As Grandes Teorias de Diogo Lyra"...

Desde os tempos mais remotos da humanidade, quando então o homem era menos que um macaco imberbe, a apropriação do fogo é algo de suma importância para a dinâmica e perpetuação de seu modus vivendi. Nesse sentido, se é possível crer em tal afirmativa, outra, desta vez acessória, faz-se imperativa: nem sempre este tipo de apropriação se dá pela via do consenso, isto é, não raro o fogo se constitui em objeto de desejo passível de usurpação por terceiros.


O registro mais antigo de fogo roubado pode ser constatado nos escritos da mitologia grega, mais especificamente, na lenda de Prometeu. Foi ele quem presenteou os homens com a chama afanada do Olimpo, fato que, por sinal, se trouxe boaventurança aos homens, desagradou bastante Zeus. Contudo, a despeito da riqueza e ilustração que traz toda e qualquer reflexão competente sobre as mitologias em geral, diria que é no contexto da modernidade, ou “pós” – como queiram os chatos – que reside o tema central de minha modesta teoria: o fluxo isqueiral.


Analisando a práxis cotidiana de uso do isqueiro, é fácil perceber as nuances que caracterizam seu fluxo. Em primeiro lugar, gostaria de salientar a profunda demanda do objeto em contextos de sociabilidade, sobretudo naqueles em que o ambiente se encontra liberado para a utilização dos fumos mais diversos. Justamente nesses espaços é que o fluxo impõe suas leis naturais com maior força e vigor, tornando a manutenção da pequena peça acendedora uma tarefa tão árdua quanto a empreitada de Hércules, cujos 12 trabalhos representam, prometo, a última referência mitológica que levanto neste texto.


Retomando o tema central, ressalto que a teoria do fluxo isqueiral está pautada em uma única e básica premissa: as interações estabelecidas entre usuários de fogo implicam, quando do uso do isqueiro, em um fluxo constante de apropriação e reapropriação do mesmo. Ainda, que este fluxo não só obedece a leis naturais como também influencia socialmente a aceitação de sua inexorabilidade pelo grupo de usuários em questão.


Desta feita, pode-se dizer que a força do fluxo é capaz de criar nos indivíduos uma espécie de habitus primário no qual a rotatividade do isqueiro é naturalizada a tal ponto que, mesmo que descoberto um destes objetos (outrora perdido) sob a tutela alheia, salvo em raríssimas exceções, o possuidor anterior aceita tacitamente a apropriação do outro. Porém, fato ainda mais intrigante e, sobretudo, confirmador das leis do fluxo, é o irônico resultado que se apresenta, muitas vezes, sob a forma de um novo isqueiro que, aparentemente do nada, vem em substituição daquele perdido na mesma noite.


Como não pretendo esgotar os limites analíticos da Teoria do Fluxo Isqueiral neste modesto ensaio, gostaria de finalizá-lo com uma pequena digressão sobre uma das poucas exceções que desafiam sua imutabilidade. Para tratar deste assunto buscarei na empiria do mundialmente famoso isqueiro Zippo as razões de meu argumento.


Afora o Zippo, todos os demais isqueiros se perdem por conta do falso caráter de instantaneidade que circunda o empréstimo. Na qualidade de bem durável mais propenso ao desaparecimento, esta pequena peça prometeuniana vive o constante perigo do extravio tanto em virtude de sua generalidade tipológica quanto por seu modesto valor de mercado. Já o Zippo, por outro lado, tem sua integridade resguardada por situar-se em pólo oposto ao destas caracterísitcas e, portanto, representa um dos maiores focos de resistência às leis do fluxo. Assim é que, congregando, por um lado, uma especificidade e singularidade próprias de sua estirpe e, por outro, o alto custo relativo a tamanha exclusividade, o Zippo desperta por parte dos pedintes e do detentor uma atenção redobrada e um senso de responsabilidade típicos de uma saudável sociedade capitalista.


Como bem salientei, outros possíveis caminhos encontram-se abertos na Teoria do Fluxo Isqueiral e espera-se que sejam desenvolvidos por novos pesquisadores dentro em breve. Certo é que, por mais sofisticadas que sejam as inúmeras interpretações sobre ele, sem dúvidas a melhor forma de proteger seu isqueiro (sem com isso tentar lutar contra o fluxo) é pedir um outro isqueiro emprestado, ainda que se possua um. Com esta atitude terá garantida a presença de ao menos uma das peças acendedoras, provendo, ao mesmo tempo, suas necessidades humanas e a lei natural do fluxo isqueiral.


* foto: sob os auspícios da vigilância, Diogo Lyra procura ficar de olho no seu Zippo (nov./2005).

7 comentários:

Cascarravias disse...

desde qdo diogo tem um zippo?

ah, e visual anos oitenta tem a tua síndica!!!

Clara Mazini disse...

Apenas para lembrar a teoria de caráter mais psicodélico que prega o roubo de isqueiros por gnomos ou quaisquer outros seres fantásticos. Mas oquei... misticismos... eu sei, eu sei.

Agora, de acordo com a sua teoria, penso que alguma semelhante que possa ser apliacada às canetinhas BIC.

Diogo Lyra disse...

Nobres companheiros, em ordem de chegada: señor cascarravias, tenho este zippo de 2005 até hoje. só não funciona mais direito.
Querida Clara, do bem-aventurado retorno, só posso dizer que você está absolutamente correta em ambas proposições. No caso das similaridades com a caneta bic, realmente, vê-se o mesmo. Assim como ocorre com as palhetas de guitarra...
Ah, e quanto aos malditos e gozadores duendes do desaparecimento, se eles não existem, então, tudo em que eu acredito também é caô!!!

Helga disse...

Putz...
Se você estiver correto, sou mesmo uma fudida: já me afanaram váaaaarios Zippo(s).
Beijoca!

Diogo Lyra disse...

querida helga, que bom revê-la por aqui!!! mas sobre o caso em questão, e todos os outros possíveis, é bom lembrar que toda exceção tem sua exceção. é batata!

Pakkatto disse...

Eu refuto a teoria pois cientistas vagabundos da Universidade de Campinas já desenvolveram em 1994 em uma noite chuvosa de abril a interpretação científica mais completa para o fenômeno que acomete isqueiros, canetas BIC e, principalmente, guarda-chuvas.
É a teoria quântica dos objetos desaparecidos.
Visitem meu blog e descubram a verdade sobre tudo isto.

Diogo Lyra disse...

grande pakkatto, sempre um detentor da verdade. como pesquisador do fluxo isqueiral desde 1999, terei todo o prazer de confrontar meus resultados com os obtidos pela Unicamp.
Tudo pela ciência!!!!