quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Contos de Quinta...


O Homem Insólito

Quando nasceu já veio ao mundo com a missão de vencê-lo. Talvez fosse essa a razão de sua baixa estatura, atrofiada pelo peso de Atlas que era, sem dúvida alguma, a carga dessa insana responsabilidade depositada sobre seus ombros esquálidos. Tinha pernas, braços e cabeça atrelados ao tronco tanto quanto tinha a mente e seus cinco sentidos atrelados ao coração.

Nunca foi puro, porque nada nessa vida é uma coisa só. Especialmente nunca esteve só e, a não ser quando refletia sobre o mundo hostil a ser dobrado por ele, jamais considerou caminhar acompanhado apenas por sua própria sombra. Tinha amigos sinceros e inimigos dissimulados. Aos últimos se entregava para o combate totalmente desarmado, se deixando golpear por pena que sentia das mesquinharias e inseguranças alheias. Dos primeiros, porém, era refém confesso; a tal ponto que mesmo carinhos por vezes lhe feriam no rosto.

Como todos, via o mundo com seus próprios olhos, mas como poucos, ele avançava com suas próprias pernas na direção do mundo. Enquanto seguia, porém, jamais teve certeza se o mundo lhe dera tudo o que tinha ou se fora ele mesmo quem arrancara do mundo as suas necessidades e superficialidades vitais. Tinha convicção, porém, que cada passo dado seguia na direção que ele mesmo traçara. Ainda que com isso tivesse que pagar o preço das sinuosidades do percurso, sabia que quando olhasse para trás, contemplando os atalhos e desvios do trajeto, muitos seriam aqueles aos quais deveria agradecer. Ninguém, no entanto, que pudesse lhe cobrar dívidas.

Era um homem livre.

O mundo, da forma como o via, era romântico em suas miudezas. Ele, verdadeiramente miúdo, imaginava, portanto, também ser visto dessa mesma forma. Na forma como concebeu o mundo para o qual foi concebido. Na forma como durante tanto tempo procurou se esconder do mundo. Na forma como o mundo, à sua forma, o protegeu de tudo aquilo que temia, quando pensava justamente não temer nada que não fosse o mundo. Por tudo isso, naturalmente, sempre esperou o melhor dos homens e das coisas, como se os homens e as coisas fossem os homens e as coisas que ele via, da forma romântica como via o mundo tanto quanto por ele esperava ser visto.

Quando o mundo se tornara grande e ele ainda mais miúdo, ficou confuso. O que havia mudado não sabia, novamente, se por ele ou pelo próprio mundo. Sabia apenas que, antes mesmo de notar as pequenas modificações, tudo já se tornara estranho, distante, sem foco. Seu romantismo, seus sonhos, sua missão, tudo havia se apequenado, se tornado duvidoso e, enfim, rarefeito.

Mas o que havia mudado no mundo, senão a forma como ele o concebera? E mudada a forma do mundo, como haveria ele de modificar sua própria forma e lugar no mundo? E mudado o homem, mudado o mundo, ou, mudado o mundo mudado o homem? Fosse o que fosse, o que mudar quando tudo muda?

Era um homem deslocado.

Lembrou-se dos tempos em que ainda vestia calças curtas e o mundo era completamente seu. Naquela época repleta de sonhos, mas também de dificuldades, o menino que um dia fora era capaz de dominar o que quer que fosse contando apenas com os recursos de sua imaginação singela. O que ele via, o que sentia, o que sonhava; o que podia, o que sentia, o que almejava; o que sabia, o que sentia, o que criava. Era ele. O dono (do que sentia).

Chegada a noite o calças-curtas experimentava certa angústia. Apagada a luz, disfarçada a forma das coisas, o que era óbvio cedia vez ao incerto e a certeza apenas uma misteriosa sombra a intimidar o calças-curtas encolhido na cama. O medo das sombras, com o passar dos anos, sumiu. Mas o medo perante a dúvida, por certo, o acompanharia das calças curtas ao paletó. Na vida adulta, porém, não havia um interruptor que acendesse a luz de sua segurança e lhe trouxesse de volta a paz e certezas de antes. Definitivamente não.

E de fato, nada mais era como antes, nem mesmo ele. Ele, não se sabendo mais quem, sentia-se como um personagem importado de outro livro, vivendo outro drama, em outro mundo. À deriva. No desconhecido. Contudo, ainda que se sentisse algo de fictício, sabia de sua verdade, de sua realidade. Sabia-se pleno e ardente, por isso vivo. O personagem que lhe fora imposto, portanto, não partia em busca de um autor que lhe conferisse vida e sentido – como numa trama pirandelliana. Seu desejo, como nos tempos da calça curta, era tão somente o de um mundo onde pudesse atuar.

Era um homem insólito.

11 comentários:

Helga disse...

Ah, Di, desculpe-me, mas eu vou...falar sério (argh!).
Que delicado seu texto! Pra quem tem dois "homens insólitos" dentro de casa, parece um mini-roteiro do porvir cotidiano. Como diz a Antônia, "o mundo é cruel, mamãe". É, acho que daqui a pouco elas estarão prontas pras suas palavras.
+ beijos.

Diogo Lyra disse...

Minha querida Helga, diferente do que acredita, "falar sério" sobre este conto é, para mim, no lugar de um "argh!", uma grande felicidade. Muito embora o humor seja um traço fatal não só deste blog mas, sobretudo, de mim mesmo, o eterno exercício da escrita nos impõe temas - deixando o premeditado, ao menos no meu caso, para momentos diferentes destes que influíram em contos como "o homen insólito". Você pode não saber, mas seu comentário valeu meu dia! Beijocas e um muito obrigado!!!

Anônimo disse...

muito bom

Clara Mazini disse...

Um homem e tantas definições. O banal sempre esconde espaços incríveis - como o Homem Comum do Gullar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
bandejas bandeiras bananeiras
tudo
misturado
essa lenha perfumada
que se acende
e me faz caminhar

gigi disse...

Amei o conto. estou meio insólita hj.
Amo os contos e as quintas.
Aprendi a fazer link!!! O FQ tá lá no Dentro da Noite, que agora tem coluna da Helga!
bjim

Diogo Lyra disse...

Ora, ora, ora, parece que hoje realmente foi meu dia.
Muito obrigado Clara, não sei nem o que dizer em face desta tremenda sacada sobre o comum e o insólito
(mas afinal, todos não somos incomuns como o comum?)...
Gigi, é uma grande gentileza sua e é muito legal você ter gostado - de uma forma ou de outra, todas as gracinhas do blog nascem em função de quinta, que é o dia dos contos - e o meu dia blogueiro predileto.

Clara Mazini disse...

Querido Diogo. Sobre o tempo, não acredito que ele seja o mesmo para todo mundo. Na minha singela opinião, cada um faz e pensa seus segundos de um modo particular. Ele passa para todos, isso é certo - mas é sentido de modo individual, em decorrência dos acontecimentos, impressões e pontos de vista... ;]

SAMANTHA ABREU disse...

Diogo,,, achei tocante...

coisas que a gente deseja que sejam escritas pra gente, saca como é?!

Achei sincero...
é tão bom assim...

Beijos!

Anônimo disse...

valeu, ziquizira! Acertou em cheio os seres insólitos. Parabéns!

Diogo Lyra disse...

obrigado arthur.

Anônimo disse...

de nada, quixote.