quinta-feira, junho 28, 2007


Hoje o Fundo de Quintal Literário não apresenta seus Contos de Quinta, pois morreu, nesta madrugada, o poeta Bruno Tolentino - um dos maiores nomes da literatura no Brasil contemporâneo. Pouco conhecida até tempos recentes, sua obra começou a se difundir em 1994 para um círculo bem mais amplo de leitores, quando então a Companhia das Letras editou o primeiro volume de sua Obra Poética, As Horas de Katharina (São Paulo, Companhia das Letras, 1994). Diferente da maioria das antologias poéticas, o livro não consiste em uma coletânea de poemas isolados, mas é uma obra de concepção integral que retrata a escalada interior de uma freira em direção ao conhecimento de Deus. Celebrado como "um dos mais altos cumes da nossa inspiração poética" (Antônio Houaiss), As Horas de Katharina recebeu o Prêmio Jabuti 1995 e teve sua edição rapidamente esgotada. Tolentino conquistou pela segunda vez o prêmio em 2003 com o livro O Mundo como Idéia e, em 2007, foi novamente selecionado como um dos dez finalistas do Prêmio Jabuti com seu último livro A Imitação do Amanhecer, cujo trecho reproduzo logo abaixo.

(leia os Contos de Quinta aqui)


A IMITAÇÃO DO AMANHECER

II.95
O ser que escolhe o exílio e anda solto no cosmos
atrás do encanto seu comparsa, quando tem
nos intervalos osculados, nesses ósculos
de epifania, uma alegria que lhe vem

de desfolhar-se e repetir-se; ao dar-se a quem
vem contrapor-se à sucessão de instantes póstumos
o pobre inunda-se de luz. É assim que, a sós
com aquele corpo igual ao dele e ao de ninguém,

o ser confunde-se ao seu duplo. Tu compunhas,
Alexandria, aquela cena refletida,
aquele enlace da metade repetida

como as molduras dos espelhos – e os rascunhos
do ser completo, ou seja, as duas testemunhas
de um mesmo encanto, protegia-as, mas da vida.

II.96
E ele pairava, demorava-se em meu peito
horas inteiras... Mas passava pelo fundo
de cada abraço como um dissabor do mundo,
o mundo se afrouxava como um laço desfeito,

Alexandria separava aquele leito
do mundo inteiro. Há nas promessas do infecundo
um destacar-se gradual, de moribundo
persuadido de que o nada é mais perfeito.

Há como um nada enguirlandado de mistério
no enlaçamento de metades sem motivo;
é sem futuro e sem passado o beijo estéril;

e, intemporal porque há um único hemisfério
nesse universo, o amor do mármore mais vivo
(a estátua é toda do instantâneo) é redutivo.

II.97
E éramos vivos como os mármores de entalhe,
incrustações da pele lisa na luz rasa
e, confundidos um ao outro como a asa
ao seu vazio, povoávamos um vale

petrificado de esplendores. Ao tocar-lhe
a estátuária magnífica, de brasa
e bronze vivo, eu penetrava numa casa
abandonada... É necessário que a alma fale

a língua morta dos heróis de Queronéia,
para tentar dizer, talvez nesse dialeto
de dois corpos tomados à perfeição da Idéia,

aquele mundo estranho: eterno, longe, ereto.
De estatuária tumultuada, mas alheia.
Cheio de sol, mas como a rosa-do-deserto.

19 comentários:

4rthur disse...

maldito poeta que foi morrer justo nessa madrugada, só pra me privar dos contos de quinta...

thaís disse...

Poeminha difícil esse, ui!
Concordo com o Arthur, o Contos de Quinta fez falta...
:(

Vivi disse...

Faço minhas as palavras do Arthur, mas agradeço, porque não conhecia esse poeta, e gostei dos poemas que você escolheu pra colocar aqui!

Roberta disse...

Diego, nunca ouvi falar desse cara antes. Parece que só você e a família vão no enterro. rsrsrs.

Fabrício Fortes disse...

um minuto de silêncio..
.
.
.
.
.
.
.....agora o poeta é também intemporal..
sorte que os versos não morrem

Cascarravias disse...

foi tarde. até onde sei, é chegado a amizades fascistóides.

juju disse...

kd os contos????? :)

Rosa disse...

Tens razão Cascarravias, mas está sendo um tanto radical. Durante um curso de crítica literária na faculdade tomei contato com Bruno Tolentino, "aristocrata", niteroiense, polêmico inimigo dos irmãos Campos, que a despeito de tudo é um poeta genial.

Diogo:
Surpreendente a lembrança.

Cascarravias disse...

eu tenho um professor genial - que aliás também é bastante apreciado pelo autor deste blog - que me fez o favor de dar uma grande lição intelectual: sempre que vc escreve, escreve a favor de alguem e contra alguem. schmittianamente falando, sei quem são meus inimigos - e esse fascistinha estava do lado deles. e pra mim precisa ser algo como nelson rodrigues ou ezra pound pra que eu releve o fato de serem inimigos de classe...

gigi disse...

Pensei que só eu nesse mundo conhecesse As horas de Katarina.

Dig, vc vai continuar brigado comigo?

Vivendo deixando a vida me levar... disse...

Oi Diogo, td bem??... me enviou um scrap no orkut e aqui estou, rss... E pra falar a verdade, gostei bastante do seu espaço, animado, dinâmico, bem-humorado, enfim me cativou!
E adorei este poema, embora um pouco complicado, mas de uma sensibilidade tocante!

Grande abraço,
pollyanna

Vivi disse...

Reli com calma e destaquei os trechos:
"É assim que, a sós
com aquele corpo igual ao dele e ao de ninguém,o ser confunde-se ao seu duplo. [...]
Ao tocar-lhe
a estátuária magnífica, de brasa
e bronze vivo, eu penetrava numa casa abandonada..."

tô viajando ou esse poema tem algo de homoerótico?

4rthur disse...

Vivi, poeta não tem sexo!






(ou será que são os anjos?)

.

SAMANTHA ABREU disse...

putz, que foda!
o cara era bom...mas, tô preferindo os contos de quinta!

Deus o tenha!

beijos

Diogo Lyra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Diogo Lyra disse...

Bem, ao que parece o velho Tolentino fez jus à fama de polêmico que carregou por toda vida. Ciente disso, o próprio dizia que quando falavam muito dele falavam do homem e não da obra.
Não ouso aqui defendê-lo, mas creio sinceramente na dualidade homem/obra, razão pela qual acredito que um pedante, endinheirado, arrogante, falastrão, vaidoso e intragável como Bruno Tolentino possa ser, a despeito de tudo, um estupendo poeta. A obra revela o homem, mas o contrário está longe de ser verdadeiro.
obs:

- Gigi, minha querida, é bom ver que eu ainda sou capaz de surpreender as pessoas eruditas mundo afora. E NÃO, não estou nem nunca estive brigado com você!!!

- Vivi, ele se refere ao "ser". Alexandria é a encarnação poética dessa metáfora conquistadora:

"É assim que, a sós
com aquele corpo igual ao dele e ao de ninguém,
o ser confunde-se ao seu duplo".

Mas pode ser que você esteja certa, nunca se sabe...

- Casca, acredite se quiser, conheci o Tolentino por indicação justamente desse professor!

Cascarravias disse...

claro que acredito. eu mesmo já o vi elogiando o trabalho desse cara. mas convenhamos, ele anda muito condescendente há alguns anos

gigi disse...

Ai, queria tanto um chopp com os comentaristas do FQL!

Cascarravias disse...

dig: "o homem revela a obra"; esse é o ponto: um pseudoaristocrata fascistóide tem uma obra... aristocrática e fascistóide. nunca vou incensar esse ser abjeto; já leu a entrevista dele na veja? filósofo pra ele é olavo de carvalho (e quem, aliás, era amigo). tudo merda da mesma privada