quinta-feira, março 08, 2007

Contos de Quinta...
(ESPECIAL DIA DA MULHER)



As marcas deixadas na terra fofa, quando de seu caminhar, eram a prova inequívoca dos pés que tinha fincados ao chão. Porém, como levitasse meio centímetro acima dos sulcos abertos por suas pegadas, deslizava pela vida com graça e sutileza, pé ante pé, sem tocar o solo e ver-se presa, como naturalmente ocorre, à concretude gravitacional que lhe permitia os passos. O chão onde pisava, isto posto, não representava mais que uma poesia inacabada na qual transcrevia seu rastro, sem que, no entanto, fizesse pesar sobre ele o peso de sua própria existência.

Contudo, a despeito da leveza com que evoluía em sua trajetória, eram poucos os que ignoravam a vitalidade e força dos seus passos de menina, que passeava pela vida não porque dela fez sua ilusão, mas porque era a própria vida, com seu volume e intensidade desmedidos, quem se obrigava, resignada, a passear no infinito de seu universo particular. De fato, ao observador externo, era nítida a potência de seu espírito, tão inquebrantável que, perseguida uma meta, fosse qual fosse, mesmo entre montanhas e arranha-céus, nenhum cenário era capaz de lhe subtrair o horizonte. Como irradiasse luz própria, penetrava por entre brechas e tomava todos os espaços no ambiente à sua volta.

Entre a aridez dissimulada do devaneio e a torrente caótica da realidade, mediava o mundo como fosse dele a única guardiã. Trazia consigo, em virtude disso, o diapasão de sua alma às mãos, exposto para quem e o que quer que fosse, fosse o caso, muito comum, de encontrar na vida nota desafinada, a ecoar e ecoar, insuportavelmente, na singular acústica de seu mundo sensível. Quando isso acontecia, deitava o mundo em seu colo e cantava para si um canção de ninar, e assim permanecia, com seu doce canto, até se fingir tomada pelo sono. Então o mundo dormia.

Insone, do coração irrequieto que abrigava ao peito, pulsante de emoções incontroláveis, fez-se escrava e, sem saber, entregue aos súbitos proclames de seu sentimentalismo autoritário, dançava a valsa da vida sob o ritmo cardíaco de suas batidas, executando com perfeição a coreografia da espontaneidade e do amor. Era plena, infinita, expansiva: ela viva, ela vida.

De pétala e espinho era ela, a menina. De folha e caule era ela, a mulher. Mas como flor, então, vivia o dilema de ver-se enraizada ao chão enquanto mirarava, perpetuamente, o firmamento que lhe permitia o sol de seu vigor.

Dos frutos que aguardava com ansiedade, por sua vez, dependia mais que o brilho e calor de uma existência ensolarada. E ainda que não soubesse de início, como normalmente acontece, aprendeu por si mesma que o florescimento reiterado da vida implica, impreterivelmente, também os cansativos dias de chuva e todo o cinza de sua explosão. Cada gota uma lágrima e cada lágrima a esperança de uma nova fertilização.

Como se dos olhos só se soubesse o close, e para além de ocular fosse ele mesmo todo o globo terrestre, viu-se, naquela íris de sol, o nublar do tempo e o correr das lágrimas, derramadas sobre o colo da mulher que tanto se acostumara às tempestades de sua nova fase. Viu-se, nos olhos da menina que chorava o mundo, um mundo choroso e repleto de nuvens, pouco convidativo, ansioso por calor. Cansada pelo pranto que emitia e que representava para ela mais um desafio a si mesma e menos uma lamentação, finalmente cedeu ao merecido sono.

Na noite de suas pálpebras cerradas, contudo, desligou-se da paisagem que se transformava ao redor do pequeno corpo adormecido. Porém, quando acordasse novamente, a menina saberia ao certo as razões do arco-íris que pairava sobre ela. Só então, ao colher dos frutos no seu recente pomar, ela viria a compreender e agradecer pelo sol e a chuva, que fazem da vida, em concomitância, uma experiência tão intempestiva quanto fértil, a brindar festiva seu novo desabrochar.

16 comentários:

Miosotis disse...

Olá!
Andava eu passeando por aí...e vim parar aqui!
E gostei do que li...giríssima esta tua página.
Parabéns e continua.
E já agora se não te importares, voltarei para saber mais novidades daqui e....rir-me um bocadinho...eh..eh...eh...faz bem aos músculos faceais.
Fica bem.
Até breve.

luciene disse...

Nossa Diogo, que texto mais lindo!
Ah, se alguém fizesse um desses para mim...
(suspiro)

gigi disse...

Dioguinho, já estava me sentindo abandonada!!! Muito obrigada por tudo, meu bem. Será que eu consigo dia 16? Será que consigo resolver passando lá hoje?

Você é um anjo. Vou escrever pro povo que quer comemorar comigo. Acho todos os preços bem razoáveis. Dá pra pedir a cerva pro povo e mais 5 paus na entrada só pra fortalecer o aluguel.

Estou reanimando!

Depois comento o conto, tá foda aqui no trabalho.

Obrigada, meu doce!

marcos disse...

caramba rapaz, quando foi que você passou a escrever assim?
ligia é a tua patroa?

Fabrício Fortes disse...

cara.. muito bom isso!

gigi disse...

Dá pra responder post, e-mail ou telefone? Tá foda, Lyrinha.

gigi disse...

Dá pra responder post, e-mail ou telefone? Tá foda, Lyrinha.

gigi disse...

Amei o conto, meu olhinho encheu d'água. Nossa... está lindo. Parece que vc escreve com uma facilidaaaade... uma coisa assim... escovando os dentes!

Acho que ia precisar colocar ponte de safena se alguém escrevesse um desses pra mim e me desse bolinhos de chuva.

gigi disse...

Amei o conto, meu olhinho encheu d'água. Nossa... está lindo. Parece que vc escreve com uma facilidaaaade... uma coisa assim... escovando os dentes!

Acho que ia precisar colocar ponte de safena se alguém escrevesse um desses pra mim e me desse bolinhos de chuva.

Diogo Lyra disse...

Pessoal, muito obrigado pelos comentários. Gostaria de saudar a todos, sobretudo nossa visitante lusitana Maria, ou Miosotis, como figura acima! Seja bem-vinda!!
Feliz 08/03 para todos!

aline disse...

Diogo, acabei de esbarrar no seu blog e quero dizer que fiquei muito impressionada com esse seu conto. É realmente muito lindo...

Anônimo disse...

Adorei seu conto "O Intenso Levitar da Flor" lindo! Sei que você republicou-o em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres, e seu texto é tão "internacional" que não consegui deixar de pensar em minha mãe, e acabei chorando no final...

Beijos ao faxineiro de minha mente embotada...

renata disse...

Que gracinha!!!!!
Não acredito que só agora visitei o teu blog, mas antes tarde do que nunca, né?!
Ah, as músicas da sua "Literalradio" são ótimas, dão um charme diferente ao site... pena que não aparecem os nomes!
Beijinhos!!!!

Cascarravias disse...

quê isso parcero, eu tô sempre por aqui... se bola não!

SAMANTHA ABREU disse...

muito bom Diogo!
adoreiiii... tão sensível...
Parabéns!

Beijo

gigi disse...

Meu benzinho, me abandonou? Pq não me atende no tel? Queria agradecer sua ajuda e não consigo!