quinta-feira, março 29, 2007

Contos de Quinta...

Procura-se

Não podia acreditar no que seus olhos lhe contavam. Ali, no fundo do sobrado onde, no andar térreo, funcionava uma tabacaria, havia bem mais do que sua racionalidade pequeno-burguesa poderia suportar.

Isto é, para além dos cigarros, charutos, piteiras, isqueiros, cachimbos e rapés típicos deste estabelecimento; para além do café, do bolo, dos pães de queijo, dos brownies e demais confeitos que ali são servidos; para além dos homens pálidos e seus jornais, livros, revistas, cartas de amor, papeizinhos dobrados, entre outras formas típicas de distração solitária que por lá são usuais; para além de todos e de tudo que se espera em lojas como aquela, bem ali, no fundo da tabacaria, existia um sonho.

Sem ao menos conseguir lembrar como foi que chegara naquele ambiente, quando, na verdade, apenas procurava uma revista importada ao sul do estabelecimento, o homem não questionou, não perguntou e não recuou. Sentiu-se simplesmente maravilhado e, tomado por um tipo particularíssimo de êxtase, deixou-se largar e caiu de sopetão em um delicioso sofá que, curiosamente, antes parecia não existir.

Percorreu com os olhos cada metro quadrado do lugar, no qual homens felizes e tenazmente ébrios trocavam falsas confidências à meia-luz de fumaça e espuma; cortejados sem exceção por funcionárias risonhas que, não fosse pelos corpos voluptuosos, seriam para sempre lembradas por sua extrema simpatia; cercados por mesas de jogos nas quais o dinheiro para aposta não acabava nunca, ainda que se apostasse mais e mais; onde mesmo a saúde padecia, mas não nos corpos entupidos de frituras e sim no seu próprio determinismo desumano.

Estava em casa. Outros como ele também estavam. Tirou o casaco, desligou o celular e, antes que pudesse pensar em qualquer coisa, foi generosamente servido por uma das jovens funcionárias.

Vinte anos depois a esposa ainda chorava pelo marido que saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou.



AVISO
:
- nossas atividades estão paralisadas até domingo -

17 comentários:

thaís disse...

a-d-o-r-e-i

Cascarravias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cascarravias disse...

é greve é? já não se fazem mais imigrantes ilegais como antigamente... bons tempos aqueles em que se pegava bolivianos por lote.

4rthur disse...

Se tem uma coisa que eu gosto é de escritores que sabem descrever, com riquezas de detalhes, um ambiente, uma personagem, um sentimento. Patrick Suskind é bom nisso. Chico Buarque também. García Márquez é inconteste. E, sem dúvida, Dioguito está nesse rol.

4rthur disse...

Casca, Dig está viajando. Física e literalmente.

Cascarravias disse...

colocar dig lyra no mesmo saco que chico queridinho buarque dá porrada. o cara tem amigos, vou logo avisando

gigi disse...

Diogo, que lindo, que lindo. Como o Arthur falou aí em cima, vc descreve lindamente ambientes, climas, pessoas... Quem dera.

[...] para além dos homens pálidos e seus jornais, livros, revistas, cartas de amor, papeizinhos dobrados, entre outras formas típicas de distração solitária que por lá são usuais; [...]

Coisa linda de se ler.

Cascarravias disse...

dig lyra pelo menos nao levanta a mão pra sua esposa.

Piu-Piu disse...

Essa semana você caprichou.

Parabéns.

Juju disse...

Digs, concordo com o Turo e com todos acima..eu tô cada vez mais fã do seu jeito casual e relaxado de escrever, nunca abrindo mão do sacarmo e das sutilizas dos detalhes...esse conto foi de arrasar, em poucas palavras e numa cena curta, vc conseguiu me transmitir a vida desse personagem...
oootimooo!!!!

SAMANTHA ABREU disse...

Diogo!
foi bom demais...

e vem cá, vai fazer o quê até domingão?!

Miosotis disse...

Olá!
Saudades de te ler.....de te ver lá pelo meu cantinho.
Bom Domingo para vc.
Até breve.

Fabrício Fortes disse...

bem bom, cara.. tua prosa é coisa da melhor estirpe

Diogo Lyra disse...

Tantos amigos, tantos elogios ... e eu um tanto quanto sem graça!
Muito obrigado mesmo.

4rthur disse...

O Chico pode até estapear a Marieta, mas que é um bom "descritor", isto é. Veja só:

"Ela preenche o cheque, e seus cabelos castanhos não me permitem ver se está mesmo sorrindo, nem se esse sorriso quer dizer que eu sou um pobre diabo. A assinatura negligente, junto com o sorriso que não posso ver, quer dizer que aquele dinheiro não lhe fará falta. O ruído ríspido do cheque destacado de um só golpe pode querer dizer que esta é a última vez. Mas a maneira de encobrir e pousar o cheque ao lado do meu pires, como quem passa uma carta boa, e de retirar a palma acariciando a toalha, como quem apaga alguma coisa e diz "esquece", significa que poderei contar com ela sempre que precisar. Ela se levanta e diz que está atrasada, diz "fica à vontade", não sabe se sorri, molha os lábios com a língua, leva os cabelos para trás da orelha e vai."

Chico Buarque - Estorvo

Cascarravias disse...

chato pra caralho.

Cascarravias disse...

que fique claro: chato pra caralho é o queridinho buarque, não dig lyra.