quinta-feira, junho 14, 2007

Contos de Quinta...


Poucos nesse mundo mereciam tanto a derrota como ele. Logo ele, que sempre esperou muito da vida, que sempre dela quis mais, sempre assim o quis porque da vida, muito comumente, recebera mais do que o merecido. Quantas vezes ouviu, para seu embaraço íntimo, vozes tantas a parabenizá-lo por suas vitórias, conquistadas, diziam eles, em uma vida tão difícil. Aliás, esse era seu maior problema: nunca achara a vida difícil de verdade, pois, em toda sua jovem experiência, mesmo as dificuldades se apresentaram demasiado fáceis.

Assim, tendo a vida se passado como mero campo recreativo de sua existência, agraciada com generosas surpresas e reviravoltas miraculosas, via na derrota um ente mitológico e, com certo desdém, podia-se dizer que aguardava com curiosidade o momento dessa experiência tão comum ao ser humano. Não que se considerasse realmente alguém alheio ao sofrimento, ao risco da privação; ao contrário, guardara consigo cada detalhe sórdido de sua vida marcada pela precariedade material. Porém, nunca duvidara do teor dessa “injustiça”, assim como jamais se concedera o direito de não revertê-la com toda pompa e glória.

Se é certo que, ao longo de sua vida, fazia o maior esforço possível para não olhar ninguém “de cima”, é mais certo ainda afirmar que jamais encontrara razões para olhar o que quer que fosse “de baixo”. Contudo, de tanto enquadrar o mundo na altura dos seus olhos, acabou se perdendo em miragens.

Sua forma de enxergar a vida era bastante simples e obviamente perigosa, pois que fundamentada na certeza de um passar de anos protocolar, cujos desdobramentos serviriam tão somente para coroá-lo ante tudo e todos. Sob esta orientação, dava por certo que seu estado de privação anterior seria vencido, vingado até, pelo privilegiado entrosamento dos neurônios e sinapses que – tão breve quanto breve é a vida – sem dúvidas haveriam de levá-lo ao triunfo. E empunhava publicamente tais palavras como faz um crente em louvor ao seu deus.

Protegido por essa conveniente ilusão, esse alguém inconformado em ser ninguém acreditava, na realidade, ser um alguém para além, restando à vida tão somente a tarefa de confirmá-lo. Entretanto, a única confirmação que a vida traz consigo, atropelando o bom e o mau; o rico e o pobre; o jovem e o velho; é a confirmação de que viver implica em sofrer, e de que sofrer faz da vida um insólito desafio no qual se ganha com as derrotas.

Quando deu por si abraçou o abalo. Obviamente lamentava muito por ele mesmo, porém, doía mais que tudo a dor de sentir-se um farsante; do constrangimento súbito que sentia em relação a todos, a todos aqueles que lhe deram ouvidos e, candidamente, conferiram algum crédito à imagem que nele encarnava criador e criatura. Para ele, que certa vez afirmara com toda sua convicção não ter dúvidas a respeito de si mesmo, o momento dessa constatação foi tão chocante que implodiu em incertezas.

Muitos dos que se encontravam à sua volta, é verdade, foram seduzidos pelo vigor de sua poética impetuosidade; outros, no entanto, procuraram incessantemente alertá-lo. Ele, por sua vez, só acreditava em si mesmo. Com isso, os caminhos que lhe conduziram ao caos eram tão triviais que, se os confessasse em voz alta, apenas revelaria a debilidade de suas ambições e, por certo, despertaria desprezo nos ouvidos mais próximos. Estava pateticamente entregue, e se sentiu só. Procurou pelo futuro e não viu nada; olhou para o passado e sentiu vergonha.

E naquela noite, como em tantas outras, dormiu um sono sem sonhos, incomodado com o peso da vida sobre seus ombros desacostumados. Dessa forma, quando enfim constatou o abismo existente entre tudo aquilo que imaginava ser e o que ele de fato era, dedicou-se a refletir, reconstruindo passo a passo, com nova perspectiva, a extensão de sua breve trajetória.

Porém, a despeito da busca incessante, das intermináveis noites em claro, das lágrimas ao mesmo tempo conscientes e autopiedosas que derramou em seu próprio nome; apesar do desejo quase infantil de voltar atrás com tudo aquilo, para o seu desgosto uma dura verdade foi cuspida naquela face repleta de questionamentos: sua única grande vitória foi ter derrotado a si mesmo.

14 comentários:

dida disse...

"Contudo, de tanto enquadrar o mundo na altura dos seus olhos, acabou se perdendo em miragens".

Dig, quem de nós é capaz de derrotar a si mesmo e renascer de si sorrindo? Quem de nós é capaz de viver perdendo-se em miragens sem contudo perder-se de si mesmo?

As quintas literárias nunca decepcionam....

Grande beijo!

Rosa disse...

AMEI!

thaís disse...

E mais um conto tocante do Sr. Lyra em nossas quintas-feiras...
Um beijo!

Bina Goldrajch disse...

Isso me fez refletir sobre minha vida.
E refletir sobre a própria vida nem sempre é uma tarefa fácil.

Bonito conto!

Roberta disse...

"Entretanto, a única confirmação que a vida traz consigo, atropelando o bom e o mau; o rico e o pobre; o jovem e o velho; é a confirmação de que viver implica em sofrer, e de que sofrer faz da vida um insólito desafio no qual se ganha com as derrotas".
Muito lindo isso.

o amigo, direto de resende, disse...

outra jóia rara do camarada Lyra. Deliro nas aliterações.


E, calro, valeu pela salvada.

Adrian Masella disse...

É, nem tudo são rosas, e a pior parte é descobrir isso!!
Quando a gente toma conhecimento, as nossas "intermináveis noites" se tornam vazias!!!

Belo texto !!

Abraço

Fabrício Fortes disse...

é uma narrativa que prende, essa tua..
o pior de tudo é ser um otimista azarado (muitas vezes, esses são os ditos pessimistas)

Cascarravias disse...

ontem nao rolou deixar comentarios, mas eu li.

achei bem apropriado pra data...

SAMANTHA ABREU disse...

"Protegido por essa conveniente ilusão, esse alguém inconformado em ser ninguém acreditava, na realidade, ser um alguém para além"

penso nisso, tanto, tanto, tanto.
e onde está esse alguém senão eu, ao espelho?!

Leitor disse...

Melhor conto que já li...

Tamires disse...

É COMO SE VIVESSEMOS MAIS UMA ESPECIE DE "HETERÓNIMO" QUE A NÓS MESMO.
MAS NÃO CONSIDERO ISSO RUIM,E SIM UMA SAÍDA PELA TANGENTE,A PORTA DE EMERGÊNCIA.

QUER VER UM BOM OTIMISMO? UNIR ESSE HETERÓNIMO PERFEITO A LEI DA ATRAÇÃO!RSRSRRSS

revolution_9 disse...

Li e comentei atrasado, mas adorei!!

Ledas disse...

Bonito, Digas, realmente bonito...