quinta-feira, agosto 02, 2007

Contos de Quinta...

O CErco
(ou
"A TORRE")

Suportado por paredes de concreto imaginário, o homem ergueu seu castelo e cercou de muralhas sua recôndita fortaleza. Do outro lado do muro um mundo contra o qual lutava para impedir que adentrassem, e pilhassem, e destruíssem, e reconstruíssem, na praça de suas ilusões, um sem número de duras realidades.

Não era sem razão, contudo, o temor do homem aprisionado na segurança de seus sonhos: bem ali, diante de si, já se mostravam nítidos os efeitos devastadores com os quais haveria de arcar, no caso ver irrompidas suas defesas, o seu precioso Eu. Eram tantos, de tão quantos, não só homens e mulheres reais, com suas diligências reais, mas também – e sobretudo – um sem número de entes fantasmagóricos a exigir, brandindo correntes, foices e molhes de chaves, sua parte no quinhão dourado fortemente protegido à custa da autonegação do homem.

Apesar da vastidão, não havia ninguém em sua propriedade. Seus amigos, amantes, parentes e rostos conhecidos de todo o tipo se encontravam fora de sua cidadela, talvez recém evadidos de medo, talvez aguardando desde sempre uma chance verdadeira de entrarem - quem sabe expulsos sutilmente por ele mesmo de seu paraíso particular. Estava confuso e estava só. Mas a despeito da solidão e da razão embriagada, quem sabe por isso, encontrava-se, também, convicto de sua vitória frente ao cerco.

Conforme a agitação do lado de fora aumentava, e tudo então parecia prestes a ruir, o homem buscava o alto de seu palácio, onde julgava ter uma visão privilegiada de tudo o que se passava, esquecendo-se, convenientemente, que nas alturas de sua torre sem fim encontrava-se cego por névoas de espessa camada irrefletida. Porém era ali, justamente em meio às brumas de sua própria verdade, que o homem procurava tijolo por tijolo da muralha e saudava, com regozijo e desespero, a frágil solidez de sua condição.

De olhos fechados então o homem rezou, dirigindo uma prece a si mesmo. Com sua fé inabalável, cercado por gritos que vinham ecoando ao longo de toda a sua vida, passeou por entre bolas de fogo, lanças, flechas e arpões com placidez, admirado pelos desenhos que formavam ao riscar o céu. Estava maravilhado com sua inquebrantável resistência e via no lastro de sangue deixado atrás de si uma prova irrefutável de sua própria santidade. Sequer ao cair, quando então a torre desfez-se sob seus pés, ele temeu por sua segurança.

O homem pensava poder levitar...


13 comentários:

Rosa disse...

Uau, tensão levada ao máximo na vida do pobre homem...
Adorei demais o conto!
Se cuide.

SAMANTHA ABREU disse...

putz Diogo!
quero esse pedaço pra mim:
"Mas a despeito da solidão e da razão embriagada, quem sabe por isso mesmo, encontrava-se, também, convicto de sua vitória..."

Roberta disse...

O pior cego é aquele que não quer ver, com certeza. Gostei muito desse texto, bem lírico e psicológico. Essa metáfora do castelo e do cerco foi boa de doer...

Cascarravias disse...

tem certas torres de marfim no alto do pescoco que sao impenetraveis.

marcos disse...

Muito bom mesmo.

Lady Vania de Tróia disse...

Nossa!!!
O homem pensava poder levitar...e pode!!!Contos de Quinta,Sexta sábado e todos os dias...Sempre a irreverência inteligente e criativa,que te faz diferente dos outros...Bom sempre passar por aqui,entre brumas diáfanas,deixando meu pólen de carinho.
Honoráveis beijos.

thaís disse...

Puxa, gostei tanto que queria ver esse conto um pouquinho mais desenvolvido. De qualquer forma eu amei, ainda mais pq eu também venho negando um monte de coisas sobre mim e esse texto caiu bem...
Beijos Diogo, e conrtinue escrevendo sempre!

Marcelo disse...

Que conto! Sucesso!

Anônimo disse...

o cara se fudeu

4rthur disse...

Sempre ecce homo, sempre demasiado humano. Desconfio que tu sofre de Rinietzsche.

juju disse...

Menino, explêndido!
E finalizado com um toque sutil...típico de bons textos!

Vivi disse...

"O cerco" ou "O calvário"? Foda...seus contos eu leio 2, 3 vezes. Muito ricos. Concordo com o Arthur. Tem um rastro de Nietzsche em alguns textos por aqui. Não comentei antes, porque era só desconfiança, e só agora estou lendo um livro do bigodudo (Genealogia da moral). Socos sucessivos no estômago...Abraço!

Sueli Fajardo disse...

Castelos, torres, gigantes moinhos de vento desmoraram-se sempre à nossa frente. Nem sempre são a negação da razão ou do real. Mas, muitas vezes, uma outra forma de ver as coisas. Parabéns!Amei.Beijo.