quarta-feira, maio 02, 2007

SEM LUZ

"O homem cansado da vida estava cansado, sobretudo, de si mesmo. Sozinho, mergulhado na imensidão de seus próprios pensamentos vazios, chorou lágrimas piedosas e, sentindo-se nefasto logo em seguida, julgou por bem abandornar os esforços cardíacos e respiratórios que tanto insistiam em mantê-lo vivo e sofrido neste mundo repleto de espinhos e urticárias.

Chorou, e chorou, e chorou. Não queria ir-se assim, sem nem ao menos outro choro que lamentasse seu próprio lamento de um ângulo diverso. Queria alguém, qualquer um, um qualquer, em qualquer lugar, que pudesse exercer sobre ele a força coatora da vida para, dessa forma, resgatá-lo. E colocou uma bala prateada no tambor do revólver negro e opaco. E sentiu com isso um arroubo de estranha felicidade. E como pressentisse no brilho letal da bala um horizonte iluminado que nunca antes experimentara, dirigiu seus dedos ao gatilho, chorando uma vez mais".

Foi quando o abrupto interrompimento da eletricidade apagou do computador o texto não salvo do jovem escritor e salvou, sem querer, a vida de seu personagem...



9 comentários:

marcos disse...

Ao menos uma vez a Light serviu para alguma coisa...

4rthur disse...

Muito bom esse. Me amarro nessa construção: "como pressentisse no brilho letal da bala", sem o óbvio "se" no meio.

E, corroborando as palavras do amigo acima, vimos que, às vezes, quem salva não precisa ser nem santo nem maconheiro.

thaís disse...

Adorei seu nanoconto surrealista!!!
Beijos.

Tamires disse...

É cada um com o seu cada qual mesmo,eu por exemplo,me encontro tão feliz nesse momento que não consigo entender o pessimismo contido no texto...
Beijão Lyra.

revolution_9 disse...

Bom, muito bom...

Lyra, espero que o jovem escritor não seja tu mesmo, senão vou ficar rezando pra luz faltar todo dia...

SAMANTHA ABREU disse...

esse é mais um do meu estilo preferido.

Mais uma vez, muito bommmm!!!!

Beijo

Diogo Lyra disse...

Revolution, o jovem escritor poderia até ser eu, mas salvo meus textos toda hora. O fato é que não é o jovem escritor que está na merda (muito menos eu), mas sim seu personagem - cujo texto não salvo foi reproduzido por mim nos dois primeiros parágrafos!
Tamires, não há pessimismo. Foi o jovem - displicente - escritor quem escreveu - e não salvou - os parágrafos sobre o "homem cansado da vida"...
Valeu galera restante!

luciene disse...

Ufa!!!
rsrsrsrsrsrs

alê disse...

devia estar ouvindo maria betânia!!! bjs