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quinta-feira, maio 17, 2007

Contos de Quinta Especial...

Cristiano, 2001
(extraído do diário secreto de T. Botelho Pinto)

Enquanto a Florence se debulhava em lágrimas diante de uma pilha gigantesca de garrafas de água, caixas de refrigerante e cerveja, me ocorreu a possibilidade de que poderia ter sobrado, também, uma ou outra latinha de Red Bull. Num arroubo misto de falta de superego com utilitarismo lúdico, revelei minhas intenções pra ela e recebi em troca, como já era previsível, um olhar misto de incredulidade desesperada com ódio circunstancial. Via-se claramente que, por nossos humores distintos e polarizados, a festa tinha sido uma doideira só. E foi, como naturalmente acontece quando é o sangue quem macula a corrente alcóolica.

De fato, tudo tinha sido absolutamente incrível até aquele momento: mais de 300 pessoas animadas e satisfeitas, entre elas muitos de nossos amigos, uma lua cheia estonteante, além da boa música que parecia embalar o espírito altruísta da noite...

O caso é que a festa tinha o objetivo fundamental de arrecadar fundos para um orfanato e foi, a princípio, idealizada como uma simples reunião de amigos dispostos a ajudar a miserável instituição. Porém, uma vez que eu tinha sido condenado pela justiça a prestar serviços comunitários e, por conta disso, obrigado a ser um dos organizadores do evento, propus uma grande festa, ambiciosa e arriscada, mas certamente compensadora. Obviamente os recursos eram escassos e não foi sem muita resistência que os convenci a pegar um pequeno empréstimo para realizá-la.

No afamado dia, porém, o público presente indicava, para nosso alívio e felicidade, a inevitabilidade do mais absoluto sucesso. Mesmo Florence, a ingênua e prestativa psicóloga do orfato que sempre me olhara com desprezo, sorria e insinuava, ao som do funk, que hoje seria o o dia de “nos conhecermos melhor”. A gatinha estava no papo.

Sei lá, talvez fosse a malévola contribuição do álcool no organismo a razão de nossa descontração catártica durante toda a festa. Do que tenho certeza e não posso fugir, contudo, é o fato de que ter ficado tão doido assim ao longo da noite me salvou de algumas tensões inerentes à organização e, em especial, de padecer da angústia relacionada às expectativas de sucesso, menos simbólicas e mais financeiras, que giravam em torno daquele arriscado evento. Indiscutivelmente, a excentricidade de meu comportamento causou no restante dos organizadores a sensação de que, para o bem geral, era melhor não pedir nada pra mim e, se possível, até fingir que não me conheciam. Assim se deu nossa interação e ninguém fudeu a vida de ninguém durante as seis horas em que a festa rolou.

Bem, na verdade mesmo, é preciso confessar que realmente algumas pessoas se fuderam. Isso de fato foi comprovado lá pelas tantas, quando tudo já se encaminhava para o fim, enquanto eu e Florence nos encaminhávamos para o segundo andar da festa. Com o intuito de compartilhar o triunfo da festa junto aos outros organizadores, fomos diretamente para o bar central, onde um grupo já estava reunido. Demoramos a perceber o motivo do contraste entre nossa imensa alegria e o ar de decepção que tomava conta do rosto de todos. Foi quando, de repente, sem ao menos trocarmos uma só palavra, a ingênua e alcoolizada Florence desviou o olhar para o canto esquerdo, constatando horrorizada a enorme pilha de garrafas d’água, caixas de refrigerante e também de cerveja, tristemente empilhadas no fundo do salão. Ao nos explicarem o drama, isto é, que a bebida encalhara por conta de um erro grotesco de cálculo, minha pequena caía no choro enquanto eu agradecia aos céus o fato de que, naquela noite, o primeiro a se fuder não tinha sido nem eu nem ela, mas apenas algumas pobres criancinhas sem pai nem mãe.

Diante da merda já grassada não tive outra escolha além de partir, eu e minha doideira, para o bar do terceiro andar, onde poderia haver alguma latinha de Red Bull encalhada. Claro que para isso fui obrigado a abandonar momentaneamente a chorosa Florence, além de, com o coração partido, ter que ignorar o hercúleo trabalho que vinha sendo feito pelos outros organizadores naquele exato instante – subindo e descendo desesperadamente, do segundo para o primeiro andar, com as intermináveis sobras do bar nos seus cansados ombros. Parti repleto de orgulho por meus companheiros, certo de que todos sabiam da minha presença em espírito naquela árdua tarefa.

Justamente quando subia as escadas encontrei Cristiano, o irmão de uma das organizadoras, que estava trabalhando no bar. Procurei fugir do contato visual tarde demais e fui abordado por ele, que me pediu uma carona pra ir embora. “Que merda” – pensei de pronto – e disse a ele que não tinha problemas, uma vez que seguiríamos na mesma direção. Porém, fiz questão de ressaltar que a carona não seria até a porta da casa dele e que apenas o deixaríamos perto, para evitar maiores desvios em nosso trajeto. Ele concordou sem pestanejar e, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, escapei de maneira espetacular rumo ao tão sonhado energético.

Ao reencontrar Florence relatei o episódio do Cristiano. Ela não curtiu muito a idéia, mas ainda assim me parabenizou pela iniciativa de limitar o percurso da carona. “Tudo o que eu quero nessa vida é tomar um banho, deitar e fingir que esse dia nunca existiu” – disse ela ainda com os olhos inchados e vermelhos de choro. Rapidamente propus à Florence que fôssemos embora, dissimulando contudo minhas intenções de “esquecer” o Cristiano por lá e de sublimar, ao chegar em casa, seu desejo de “dormir”.

Quando já estávamos quase escapando, praticamente a um passo da porta de saída, pintou o Cristiano. Fiquei muito puto e, enquanto dava um tapinha no ombro dele afirmando “eu ia te procurar lá fora”, pensei “como é que ele achou a gente”?! Mas o pior é que junto com o Cristiano estava um outro cara, mais jovem e mais desconhecido que qualquer um da festa. Fiquei desconfiado e não deu outra: o filho-da-puta do Cristiano se apressou em apresentar o “amigo”, feito ali mesmo naquele evento, e anunciou que tinha prometido a ele que os dois iriam embora juntos. Concordamos dizendo que então desceriam juntos quando nossos caminhos tomassem rumos diferentes – e entraram no carro fazendo um irritante alvoroço. Em menos de 30 segundos já tinha ódio daqueles dois – que pediam pra mudar a música, aumentar e depois baixar o volume, além de mexer com uns travestis que estavam parados na esquina. Mas o pior ainda estava por acontecer.

Após já termos avançado satisfatoriamente em nossa viagem de volta, a porra do Cristiano anunciou que tinha perdido a carteira, provavelmente deixada no local da festa. Tentei convencê-lo a voltar lá no dia seguinte, mas como era de se esperar, ele disse que tinha prendido sua chave de casa em um dos fechos da carteira. Me adiantando às considerações de Florence, propus aos dois que descessem ali mesmo onde estávamos, uma vez que fazer o retorno nos custaria um passeio por quase todo o centro da cidade. Eles insistiram pra voltar lá, e Florence acabou cedendo visivelmente consternada.

Durante o percurso de volta, após nos perdermos sei lá quantas vezes, imaginei que enfim tinha me fudido de vez, quando então o Carona, recém amigo do Cristiano, começa a choramingar preocupado com o horário. Apelando para todas as técnicas de melodrama conhecidas pelo homem moderno ele implorou que o levássemos em casa, com a justificativa de que morava em um lugar tão perigoso, mas tão perigoso, que para os miseráveis que faziam o tal caminho naquelel horário a morte era quase uma benção. E foi assim que durante todo o percurso de volta até o local da festa ouvimos os papos mais brabos da face da terra, com inesquecíveis momentos cênicos protagonizados pelo Carona. Estávamos definitivamente na paranóia com o clima sombrio daquele inusitado jovem. Mas graças a Deus o pior de verdade ainda estava por acontecer.

Paramos em frente ao sobrado onde outrora tudo havia acontecido quando o Cristiano desceu do carro e, após algumas batidas na porta já cerrada do local, finalmente entrou. Sem perder tempo, obedecendo aos meus instintos mais primitivos, sugeri ao Carona que também adentrasse o sobrado e ajudasse Cristiano. Florence olhou pra mim com pavor, enquanto o Carona, na maior cara-de-pau, me disse que “não precisava”. Olhei aquele merdinha sentado no banco de trás e vomitei um discurso emocionado sobre a beleza da solidariedade. Florence me olhou horrorizada quando finalmente fechei meu raciocínio lembrando as virtudes solidárias de Cristiano, em especial, do fato dele nos ter convencido a levar são e salvo aquele frágeil jovem até a porta de sua residência. Era o que ele queria ouvir.

Mudando radicalmente a soturna expressão de sua face, o Carona sorriu amavelmente e enfim saiu do carro. Confesso que ainda hoje recordo com o coração repleto de ternura aquele momento todo especial, quando então ele andou em torno do automóvel e, piscando o olho para Florence, disse “vocês não vão deixar a gente aqui, né?”. E respondi com a mais tenra voz um humilde “claro que não”. Minha pequena ainda teve tempo de me lançar um último olhar de incredulidade. Foi a minha vez de sorrir.

Assim que ele sumiu de vista olhei pra Florence e disse “manda brasa”. Confusa, minha adorável menina disse que não podia fazer aquilo, que era muita sacanagem, que o Cristiano era irmão de uma das organizadoras, que se ele não achasse a carteira e a chave não poderia voltar pra casa, que a gente prometeu esperar, blá, blá, blá. Dei-lhe um beijo na testa, segurei sua mão e disse que tudo iria dar certo se ela engatasse a primeira e pisasse no acelerador. E o carro partiu.

Uns duzentos metros a frente o sinal estava vermelho e paramos. Lembro que ainda estava tentando acalmar Florence quando avistamos pelo espelho retrovisor as silhuetas do Cristiano e de seu jovem amigo correndo em nossa direção. Quando os dois já estavam tão perto do automóvel que seus gritos de “espera aí” podiam ser ouvidos perfeitamente, arrancamos com o carro e eu gargalhei como um verdadeiro louco.

Convicto de que tinha vivido um dos momentos mais brilhantes da minha vida, lamentava apenas o fato de não ter um cigarrinho pra comemorar. Contudo, quando me virei pra pegar um CD no banco de trás, qual foi minha surpresa ao constatar o maço de cigarros do Carona, praticamente inteiro! Tomei um dos seus emprestado, acendi e me surpreendi novamente ao perceber uma nota de dez reais alocada no plástico do maço. Me peguei pensando sobre como aqueles dois voltariam pra casa sem dinheiro, quando dei conta que havia esquecido a latinha de Red Bull na porra do segundo andar. Diminui o ar condicionado do carro, botei minha canção predileta e, antes de me ajeitar confortavelmente no macio banco de couro, já quase na porta de casa, ainda tive tempo de sentenciar: “maldita lei do retorno”.

quinta-feira, maio 10, 2007

(extraído do diário secreto de T. Botelho Pinto)
Tenho poucos motivos para me achar um ser humano exemplar. Naquele momento mesmo, diga-se de passagem, acabara de completar com sucesso uma de minhas artimanhas mais odiosas e, ciente de tudo o que havia se passado, caminhava serenamente o restante do quarteirão ainda com meio cigarro entre os dedos. Como sempre estava muito chapado e sorri ao lembrar do Carroba indo embora junto comigo pouco antes, lamentando a súbita interrupção do nosso encontro. Sem sombra de dúvidas ele era um cara legal mas, naquelas circunstâncias, não hesitei em fazer uso da famosa “manobra de fuga nº 04”. Joguei a guimba (aproximadamente um terço dela) fora, dei um alô pro porteiro e, menos de cinco minutos depois de ter saído com o dito cujo, já estava eu de volta ao lar, merecedoramente só.

Imediatamente sentei no sofá, peguei os livros de volta e decidi apertar um beck – “o beck da vitória”, como disse pra mim mesmo em voz alta. Quando finalmente achei o isqueiro e acendi o baseado, senti o tipo de regozijo que apenas os canalhas são capazes de experimentar e novamente soltei uma comedida risada. Na verdade, a consciência de minha vilania bem sucedida não impedia que eu mantivesse, paralelamente, uma visão mais lúdica sobre o que se passara. De fato, findo o beck, já naquele momento posterior em que o tabaco é a estrela, modificara radicalmente minha concepção sobre o ocorrido, passando a acreditar piamente que fora eu o vitimado no episódio carrobaniano – quando então, para protegê-lo de seu pecado, ofereci a outra face em sincero sacrifício. No meio do cigarro fui buscar um café, já absolutamente convicto de minha inocência e, por que não dizer, maravilhado com a admirável pureza dos meus sentimentos.

O caso é que o Carroba apareceu do nada. Porra, imagine só, você, na sua casa, largadão, de cueca no sofá assistindo TV, tudo uma grande zona e, como num passe de mágica, aparece o Carroba. “Puta-que-pariu” – foi o que pensei. “Sobe aí, cara” – externalizei pelo interfone. Tinha que ser rápido, já que contava com apenas 44 segundos, que era o tempo de subida do elevador, para dar uma geral no aspecto de holocausto nuclear da casa. “Filho-da-puta” – soltei faltando apenas 8 segundos para a chegada deste velho amigo de infância.Na verdade, na verdade mesmo, o Carroba nem estava tão errado assim.

Fiquei de devolver uns livros que ele havia me emprestado, mas acabei me afeiçoando tanto por eles que jurei, com lágrimas nos olhos, mantê-los sob meus cuidados e tratá-los como os filhos biológicos que eu jamais desejei algum dia ter. De fato, por sua insistência em reavê-los, cheguei a pensar que também ele, o bom e velho Carroba, nutria algo de especial pelos tais livros. Por via das dúvidas, cedendo às sentimentalidades do momento, optei por não atender mais o telefone. Assim flutuavam meus pensamentos até que ouvi o elevador estancando no meu andar e, de pronto, o soar de duas inconvenientes batidinhas na porta. “Filho-de-uma-puta”, foi a sentença final prolatada enquanto girava a chave e escondia os livros debaixo do sofá. Com um abraço efusivo e um sorriso quase contagiante, o Carroba adentrou minha humilde propriedade como um vampiro que acaba de ser convidado para uma taça de vinho.

Como de costume, apertamos unzinho e mandamos brasa. Tudo ia bem enquanto fumávamos até que, num dado momento, nitidamente sob o efeito relaxante do baseado, o Carroba entra naquela espécie de transe vegetativo, de um automatismo típico daqueles que já embarcaram, há muito, na complexidade solitária de sua própria viagem. Era sempre assim: o Carroba ficava absolutamente mudo, sentado no sofá, com o olhar fixo em alguma coisa além do horizonte, e eu lá, na merda, tentando desesperadamente articular assuntos e mais assuntos para evitar o constrangimento do silêncio. Apertei outro, como geralmente faço nessas situações, e ainda consegui sacar mais uns três ou quatro temas inéditos.

Quando já estava muito puto com tudo aquilo o telefone tocou. O aparelho não tinha fio e estava do meu lado, mas, como antevisse a luz no fim do túnel, levantei e fui atender a ligação no quarto antes mesmo de saber quem era. E não era ninguém – a ligação caiu. Contudo, senti que aquela talvez fosse minha única chance de escapar e imediatamente me lembrei da “manobra de fuga nº 04”. O risco era imenso, mas contraí os lábios num sorriso discreto e, de pronto, simulei uma conversa com meu interlocutor fictício.“Puta merda, não acredito nisso”, lembro de ter falado em tom mais alto e grave. Balbuciei ainda um ou dois palavrões e, desligando o telefone, fui até a sala comunicar ao Carroba meu súbito infortúnio – diga-se de passagem, ainda em fase de construção mental. Com a cara mais lavada do mundo falei que precisava ir com urgência ao banco “resolver uma merda que eles tinham feito”.

Me mostrando altamente consternado, conduzi aquela perfídia teatral com uma atuação impecável. Então, como estivesse sem graça, pedi licença para tomar um rápido banho e trocar de roupa, para, em seguida, assumir contrariado o ônus de minhas responsabilidades. Nitidamente desapontado, o Carroba apenas anuiu com a cabeça e desceu junto comigo ao som dos impropérios que emitia, naturalmente, em face daquela odiosa situação. “Malditos bancos”, foi a frase que repeti três vezes no elevador, perdendo apenas para “filhos-da-puta”, com quatro citações e, naturalmente “beleza, ele esqueceu os livros”, com aproximadamente 9 aparições mentais.

Já na porta do meu prédio, me despedi do cara, andei na direção oposta a dele, acendi um cigarro e, feliz com o sucesso da “manobra de fuga nº 04”, dei uma rápida volta no quarteirão, retornando pra casa antes mesmo que o último trago tivesse sua hora. Felizmente ninguém saíra ferido ou magoado com o lamentável episódio, cujo desfecho se deu de maneira quase tão perfeita quanto daquela outra vez em que tive de alugar um smoking para simular um... ah, foda-se. Isso é tudo besteira. Pra mim o que importa mesmo é a felicidade dos meus amigos.


* Interessado em saber como o diário secreto de T. Botelho Pinto foi encontrado?
Aperte aqui!

terça-feira, maio 08, 2007


(Foto rara do Sr. T. Botelho Pinto)

É isso aí pessoal! Durante o mês de maio a equipe do Fundo de Quintal Literário presenteará o leitor com o Contos de Quinta Especial - Mémórias Descontínuas de um Grandessíssimo Filho-da-Puta.

Os relatos apresentados nas próximas semanas não constituem obra de ficção e seu conteúdo consiste na transcrição parcial das anotações deixadas por T. Botelho Pinto no seu diário secreto, escrito entre os anos de 1999 e 2005. Muito embora jamais tenhamos pedido permissão ao autor para publicar suas histórias de fundo sociopata, é dele, contudo, a única e exclusiva responsabilidade pelos possíveis danos morais aos terceiros aqui citados. Deixamos claro que não concordamos com sua filosofia de vida e dissuadimos o leitor a vê-lo com bons olhos.

De fato, este homem que, temporariamente, protagonizará a leitura das quintas-feiras é um péssimo exemplo de ser humano: drogado, egoísta, desonesto, ardiloso. Contudo, a despeito da vulgaridade com que são impostos rótulos para tudo e para todos, é fato inquestionável a virtude transformadora que detêm esses humildes escritos. Melhor dizendo, este relato, se lido - como pressupõe-se destino daquilo que é escrito – possui a capacidade de realizar, para além do puro entretenimento, uma grandiosa revolução na vida de quem o lê. Ele tem o poder de regular a atividade intestinal de qualquer ser humano em dificuldades. Trata-se, obviamente, de uma clássica leitura de banheiro.

Muito embora assim pareça, e nisso resida justamente o valor espetacular de seu conteúdo, as experiências de vida narradas neste livro são absolutamente reais e o registro de suas memórias, descontínuas tanto quanto inspiradoras, manteve-se oculto por longa data e, portanto, inacessível aos indivíduos de todo o planeta até este momento.

Antes de estabelecer os justos pormenores que exige tal afirmação, faz-se imprescindível ao menos uma modesta alusão sobre o homem que se esconde por detrás das letras, isto é, aquele que sendo, a um só tempo, autor e personagem desta obra, configura-se, em última instância, como o inquestionável padroeiro do intestino alheio. Mais que a ordenação de idéias, mais que a narrativa, mais que mais qualquer outra coisa que possa, assim, caracterizar tecnicamente o que se chama de “texto”, é ele, o homem que lhe deu vida, a fonte de tamanho poder.

Diante de tão fortes confissões, porém, é preciso que se saiba que T. Botelho Pinto não é, para nós, de todo um desconhecido e, tampouco, um santo.

Por longa data fui amigo do Botelho e confesso que estive presente em muitas das histórias aqui narradas. Entretanto, jamais tive a intenção de publicá-las porque nunca trabalhei com livros e sequer os lia. Foi por causa dele, acreditem ou não, que hoje sou a pessoa responsável pelo famoso Fundo de Quintal Literário. Antes do Botelho apenas exercia a função de contador em uma empresa de importação.

Foi durante uma de suas tantas estadias no meu apartamento que tudo mudou e, de certa forma, estes escritos nasceram para o mundo. Achei o seu diário secreto logo depois que me vi demitido da tal empresa – pra variar, por conta do Sr. T. Botelho Pinto.

Acontece que o Botelho tinha ido embora lá de casa e substituído o conteúdo da minha melhor garrafa de wisky por mijo. Sem saber, presenteei meu chefe com esta garrafa pouco depois, procurando adulá-lo com fins de aumento salarial. Fui demitido.

Ao encontrar seu diário secreto, porém, tive a idéia de publicá-lo e fundei o que hoje é este gigante do mercado editorial virtual, o Fundo de Quintal Literário. Dedicado a outras tarefas, contudo, esqueci-me destes escritos até a presente data e só agora seu conteúdo tórrido finalmente ganhará o mundo.

Novamente é preciso avisar que as propriedades de esvaziamento intestinal destes escritos não sobrepujam seu conteúdo degradante. Desta feita, os relatos vindouros não são recomendados aos puros de coração que, mesmo com prisão de ventre, devem se manter afastados sob o risco da perdição.

Meus sinceros agradecimentos.

Diogo Lyra

Não percam, na próxima quinta!!!

* para se interar dos Contos de Quinta clique aqui.