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quinta-feira, outubro 04, 2007

Contos de Quinta...




Meus cumprimentos a todos os leitores desse espaço virtual. Como explica o título, sou o Monsieur Du Contraux, Alexis Du Contraux - para ser mais exato - e é com muito orgulho que hoje inicio meus trabalhos como colunista do Fundo de Quintal Literário. Bem, feitas as apresentações, creio que é hora de ir direto ao tema de minhas reflexões auspiciosas desse mês, isto é, sobre como a alimentação vegetariana consiste, ao fim e ao cabo, em um modelo alimentar cruel, pretensioso e politicamente incorreto.

Em primeiro lugar devo chamar atenção para uma das premissas mais clássicas da filosofia vegetariana, cujas bases se assentam sobre o desejo de não se alimentar com nada que um dia tenha sido um ser vivo. Muito embora a carne seja o principal vilão nesse contexto, é preciso ressaltar que certos grupos radicais como os “vegan” incluem no rol de interdições alimentos como o queijo, o leite e até mesmo a água com gás. Muito bonito, mas vejamos isso de perto.

Ora bolas, tudo bem que eles não queiram comer carne, mas isso não quer dizer que eles não tenham que matar para se alimentar – afinal todas as plantinhas espalhadas pelo globo são, definitivamente, seres vivos! E o pior é que, negando esta condição às plantas, aos vegetais, às árvores e seus frutos, e folhas e flores belíssimas, esses tais naturebas vão espalhando a morte e promovendo uma verdadeira “vegetificina”.

Sim, meus caros amigos, são palavras duras, mas nem por isso levianas. Há anos esse massacre vem ocorrendo e desde os anos 60 não poupa machos, fêmeas e, principalmente, crianças – uma vez que o índice de mortandade entre os brotos de feijão, bambu e grama já se encontra entre os maiores de todo o globo. Só para se ter uma idéia, para cada vitela (tipo de carne oriunda de bezerros molengas) que chega às mesas do consumidor, são assassinados cerca de 875.600 brotos vegetais, muitos deles na presença dos próprios genitores.

Além disso, muitos desses homens e mulheres bebem o sangue de suas vítimas, que chamam de “suco de clorofila” como se o cientificismo da nomenclatura pudesse abstê-los da culpa e da verdade por trás de seus atos supostamente bem-intencionados. Com sua postura leviana os vegetarianos conseguem ser nocivos não só aos pobres vegetais como, também, aos homo sapiens e ao planeta como um todo – visto que, em tempos de aquecimento global e desastres ecológicos, o extermínio das populações verdes com objetivos predatórios alimentares pode ter efeitos catastróficos para nosso meio ambiente.

Finalmente, gostaria de terminar minha breve digressão com um apelo para que todos os seres humanos desse planeta se unam contra os vegetarianos de todo o tipo, promovendo a aniquilação de sua maldosa filosofia de vida em prol de um mundo mais sadio, com mesas fartas e florestas densas – lembrando que, se por um lado os vegetais são capazes de produzir seu próprio alimento, por outro, se uma vaca pudesse, ela devoraria você e toda a sua família.

Preserve o verde. Coma carne.





Monsieur Alexis Du Contraux é intelectual, é francês, é o dono da verdade e trabalha para o Fundo de Quintal Literário.



quinta-feira, setembro 20, 2007

Contos de Quinta...


para Samantha Abreu


Se pudesse contradizer a ordem natural das coisas e, assim, tornar-se a última testemunha do seu ato final de existência, veria em posição privilegiada o balé descendente da rosa, confundindo em espirais de vermelho-sangue a placidez do azul celeste e a palidez de sua carne tesa rente à madeira. Ali, deitada, como se nunca tivesse levantado para a vida, foi agraciada também por amarelos, brancos e roxos – um mar de cores insensatas que se misturavam, entre pétalas impotentes, diante da força e da presença do vermelho fúnebre.

Sentia o desconforto escorrer-lhe pelo corpo insinuante, massacrando com seu odor ocre e viscosidade magmática a mocidade límpida de seus treze anos de idade. Jamais esqueceria aquele momento de apoteose caótica, quando então o sangue desceu por entre suas pernas trêmulas de medo e anunciou, como quem canta, o fim do primeiro ciclo de sua inocência: “Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós. Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós. Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós”.

Contudo, apesar da eloqüência do sangue, não era dele que emanava o mantra cristão que ressoaria em seus ouvidos ainda por muito tempo. O sangue, o som, a sanha daquele momento, tudo, enfim, provinha dela, a Mãe. E pensava nela, a Senhora Perfeita, que com toda sua educação privilegiada, sua mania de limpeza, sua beleza pasteurizada por plásticas e perfumes importados, também não conseguiu evitar, nos seus jovens tempos, esse mesmo constrangimento. De certa forma, era essa íntima ligação entre ela e a Mãe a razão de seu desespero, como se a descamação do endométrio a tornasse uma versão mais jovem daquela Mulher que beijava carinho e soprava álcool de lábios tingidos de batom vermelho. Vermelho, vermelho, vermelho-sangue...

Não soltou um único gemido de prazer e tudo o que dela saiu foram gritos de dor. Uma dor lacerante que lhe varria o corpo como impingisse, de dentro para fora, um renascimento completo, deflorando por inteiro a menina que se tornava, de uma vez por todas, a mulher que ainda não se preparara para ser. No lençol, atestando a ardência íntima de suas partes menos conhecidas, uma mancha vermelha de proporções médias, colorido único de um cenário negro por excelência: “Puta, puta, puta – igualzinho sua Mãe. Puta, puta, puta – igualzinho sua Mãe. Puta, puta, puta – igualzinho sua Mãe”.

Os gritos pareciam ser todos dela, mas o sangue, o silvo, o sexo daquela encenação eram protagonizados por ele, o Pai. O Homem, que chegava em casa tarde da noite com os cabelos tão molhados que ensopava de lágrimas o rosto da Mãe, acenava seu contracheque parrudo com a mão esquerda, enquanto traçava no ar, com toda sua potência destra, o arco que estalaria em cinco dedos no rosto da esposa ébria e descontente. Era nesses momentos que explodia toda a ambigüidade da menina, quando, apavorada, sentia-se também tomada por ondas de uma jubilante admiração. Entretanto, ainda que devota daquele homem oprimido pelo nó da gravata, quando tentava se lembrar, tudo o que podia ver eram seus olhos repletos de ira, desenhada em gráficos de traço vermelho. Vermelho, vermelho, vermelho-sangue...

Havia por fim encontrado a paz. Pode-se dizer que mergulhara em um mar de segundos infinitos, onde nadou em ondas silenciosas logo que seus tímpanos explodiram com o estampido seco e libertador do disparo. Quente e viscoso como nunca antes, o arauto rubro inundou seu corpo de redenção e, como fosse prova cabal de sua expiação e sacrifício, parecia render louros ao destino salvador: “Vai morrer pra aprender que mulher de malandro nasceu pra levar pau. Vai morrer pra aprender que mulher de malandro nasceu pra levar pau. Vai morrer pra aprender que mulher de malandro nasceu pra levar pau”.

Pareciam ser do rapaz com o qual se juntara – para a valsa de uma paixão violenta – os urros de ódio e ressentimento a encerrar o romance proibido que lhe custara o desgosto da família e sua saída de casa. Mas, pela primeira vez na vida, o sangue, o sonho, a soma de todo um momento eram inteiramente seus e de mais ninguém. Fechou os olhos e sentiu a escuridão avançar, ainda que o sol preenchesse de luz suas pálpebras banhadas de um sossego vermelho. Vermelho, vermelho, vermelho-sangue.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Contos de Quinta...

De: Nestor
Para: Humanidade

(carta 3)


Aqui estamos nós, outra vez, interagindo à distância, como convém aos humanos quando querem parecer civilizados. Obviamente que, considerada a ontologia da palavra “civilização”, nunca levei o termo realmente a sério e se o utilizo aqui é apenas porque sou humano e, nesse caso, leviano como vocês.

Eu finjo, como finge qualquer ser humano, que construo uma rede de relações saudáveis, que respeito seus componentes, que os tenho amor e que entregaria a minha própria vida, sem pensar, por qualquer um deles. Eu minto, como eles mentem. Nós mentimos, eu e você, sempre que estamos juntos – e assim somos felizes.

Mas o pior não é mentir para os outros – “seu vestido é lindo” – nem mentir para si mesmo – “eu não tenho culpa” – pois, afinal, somos apenas humanos. A grande insensatez, por incrível que pareça, é a tal noção da verdade. Perdão pela sinceridade, mas somos todos grandes loucos se cremos de alguma forma na existência dessa dama mordaz e passional que, desde já, será registrada sob o peso da maiúscula: Verdade.

Dama ou meretriz, a Verdade consiste, na verdade, no Deus único, de cada homem único, que forma o imenso panteão do monoteísmo politeísta da humanidade. Cada homem guarda consigo uma aurora, enfiada no bolso, pronta para ser sacada e iluminar igualmente todo o coletivo com o peso de sua grandiloqüência.

Digo que a Verdade é tão sordidamente humana justamente por se pretender sobre-humana; ela não verga e prevalece, supostamente, diante de tudo e todos, como uma tela de cinema que exibe seu conteúdo inconteste para um espectador passivo. A Verdade alimenta as guerras, opõe egos, depõe a sensatez e distancia o homem de sua verdadeira missão: a insignificância consciente.

Ah, quantas vezes me vi solapado por inúmeras Verdades, tão cruéis e nitidamente tão parciais que, ao fim e ao cabo, eram menos que demonstrações miseráveis de arrogância e descontrole. A Verdade é o cristianismo, o judaísmo, o terrorismo e todas as outras religiões; a Verdade é a política externa norte-americana e os desmentidos da Ciência. Não, a Verdade não está lá fora, nem aqui dentro. Ela se arrasta por entre pedras e lama e aponta a saída do paraíso.

Como ser humano que sou, desde 1910, reverencio a mentira dentro de seus contornos bem definidos e essencialmente humanos: ela é moldável, adaptável aos sujeitos e situações, ela é calculada, refletida e socialmente culpável. A mentira é o conforto da alma e o asilo das relações. Ela se opõe à Verdade e, entre uma e outra, estabelecemos a distância como ponto morto das nossas próprias intolerâncias.

Eu não tolero os humanos, a despeito de sê-lo. Eu minto, contudo. Por isso só falo a Verdade.


* Para ler as outras cartas do velho Nestor:

Carta 01

Carta 02


quinta-feira, agosto 09, 2007



Chaupiscos Digressivos: a metafísica do cocô

O mundo coprofólico enfrenta, com o passar dos tempos, uma série de entraves situados para além do mau funcionamento intestinal. Não se trata, contudo, de um debate recente este que, por nós, intelectuais da escatologia, é conhecido como metafísica do cocô.

Nesse sentido, é no texto bíblico do Gênesis que encontramos, sob aura sacra, a primeira referência acerca do tema, explícito no relato sobre a criação. A passagem reveladora do texto sagrado conta sem pudores aos homens de bom coração que, no início dos tempos, “do barro (de Deus) fez-se o homem”.

Desde então, na tentativa de compreender seu lugar no mundo, a raça humana procurou respostas para sua condição universal e, no curso evolutivo de sua história singular, subverteu crenças, derrubou dogmas e instaurou, por repetidas vezes, uma nova perspectiva, diametralmente oposta à anterior, sobre a relação homem/merda.

Com o Iluminismo, e a crença no homem como centro do mundo, nasceu a corrente filosófica que pregava justamente o contrário do texto bíblico de Gênesis. Sua argumentação fundamental dizia que “se do barro fez-se o homem, do Homem também se faz o barro”. Nesses tempos de luzes os banheiros eram locais de efervescentes trocas, freqüentados por intelectuais e artistas interessados em experimentar a sensação divina do ato da merda. A estátua “O Pensador” - uma das mais famosas esculturas de bronze do escultor francês Auguste Rodin – é uma homenagem ao espírito engrandecedor desse período.

Os novos tempos modernos trouxeram consigo uma reviravolta na realidade do cocô. Do Iluminismo à Revolução Industrial, o homem passou a se sentir tão igual a Deus que resolveu renegar sua obra, no caso, a merda, e cagar para o próprio homem. Por muito tempo os operários de todo o mundo – homens, mulheres e criancinhas – foram tratados como dejeto e jogados no vaso sanitário do capitalismo para que os governos dessem descarga...

Atualmente a pós-modernidade vem suscitando questões relevantes sobre a relação cotidiana estabelecida entre o homem e a merda. Um dos estudos mais interessantes sobre o tema vem do antropólogo russo Brunov Cardovsky Osorov, que estuda o papel do papel higiênico no dia-a-dia do homem pós-moderno. O intelectual propõe uma visão dualista sobre “o ato da limpeza barro-metafísico representado pelo papel higiênico”, que consiste, segundo sua teoria, numa “escolha coordenada assindética entre dois tipos clássicos de papel: o rasga-cu e o borra-dedo” (Osorov, 2005).

Ferir o ânus ou borrar o dedo: eis a questão dos novos tempos. Entretanto o que não muda, desde que o primeiro hominídeo pisou na Terra, é que somos seres cagantes e a única coisa que nos diferencia dos outros animais é que tratamos a merda com vergonha. A despeito de fazermos as maiores cagadas do planeta.


Dr. Iohannas Beebop

PHD em Escatologia

Universidade Chicago, Boston.


quinta-feira, agosto 02, 2007

Contos de Quinta...

O CErco
(ou
"A TORRE")

Suportado por paredes de concreto imaginário, o homem ergueu seu castelo e cercou de muralhas sua recôndita fortaleza. Do outro lado do muro um mundo contra o qual lutava para impedir que adentrassem, e pilhassem, e destruíssem, e reconstruíssem, na praça de suas ilusões, um sem número de duras realidades.

Não era sem razão, contudo, o temor do homem aprisionado na segurança de seus sonhos: bem ali, diante de si, já se mostravam nítidos os efeitos devastadores com os quais haveria de arcar, no caso ver irrompidas suas defesas, o seu precioso Eu. Eram tantos, de tão quantos, não só homens e mulheres reais, com suas diligências reais, mas também – e sobretudo – um sem número de entes fantasmagóricos a exigir, brandindo correntes, foices e molhes de chaves, sua parte no quinhão dourado fortemente protegido à custa da autonegação do homem.

Apesar da vastidão, não havia ninguém em sua propriedade. Seus amigos, amantes, parentes e rostos conhecidos de todo o tipo se encontravam fora de sua cidadela, talvez recém evadidos de medo, talvez aguardando desde sempre uma chance verdadeira de entrarem - quem sabe expulsos sutilmente por ele mesmo de seu paraíso particular. Estava confuso e estava só. Mas a despeito da solidão e da razão embriagada, quem sabe por isso, encontrava-se, também, convicto de sua vitória frente ao cerco.

Conforme a agitação do lado de fora aumentava, e tudo então parecia prestes a ruir, o homem buscava o alto de seu palácio, onde julgava ter uma visão privilegiada de tudo o que se passava, esquecendo-se, convenientemente, que nas alturas de sua torre sem fim encontrava-se cego por névoas de espessa camada irrefletida. Porém era ali, justamente em meio às brumas de sua própria verdade, que o homem procurava tijolo por tijolo da muralha e saudava, com regozijo e desespero, a frágil solidez de sua condição.

De olhos fechados então o homem rezou, dirigindo uma prece a si mesmo. Com sua fé inabalável, cercado por gritos que vinham ecoando ao longo de toda a sua vida, passeou por entre bolas de fogo, lanças, flechas e arpões com placidez, admirado pelos desenhos que formavam ao riscar o céu. Estava maravilhado com sua inquebrantável resistência e via no lastro de sangue deixado atrás de si uma prova irrefutável de sua própria santidade. Sequer ao cair, quando então a torre desfez-se sob seus pés, ele temeu por sua segurança.

O homem pensava poder levitar...


quinta-feira, julho 19, 2007

Contos de Quinta...


O Homem Insólito

Quando nasceu já veio ao mundo com a missão de vencê-lo. Talvez fosse essa a razão de sua baixa estatura, atrofiada pelo peso de Atlas que era, sem dúvida alguma, a carga dessa insana responsabilidade depositada sobre seus ombros esquálidos. Tinha pernas, braços e cabeça atrelados ao tronco tanto quanto tinha a mente e seus cinco sentidos atrelados ao coração.

Nunca foi puro, porque nada nessa vida é uma coisa só. Especialmente nunca esteve só e, a não ser quando refletia sobre o mundo hostil a ser dobrado por ele, jamais considerou caminhar acompanhado apenas por sua própria sombra. Tinha amigos sinceros e inimigos dissimulados. Aos últimos se entregava para o combate totalmente desarmado, se deixando golpear por pena que sentia das mesquinharias e inseguranças alheias. Dos primeiros, porém, era refém confesso; a tal ponto que mesmo carinhos por vezes lhe feriam no rosto.

Como todos, via o mundo com seus próprios olhos, mas como poucos, ele avançava com suas próprias pernas na direção do mundo. Enquanto seguia, porém, jamais teve certeza se o mundo lhe dera tudo o que tinha ou se fora ele mesmo quem arrancara do mundo as suas necessidades e superficialidades vitais. Tinha convicção, porém, que cada passo dado seguia na direção que ele mesmo traçara. Ainda que com isso tivesse que pagar o preço das sinuosidades do percurso, sabia que quando olhasse para trás, contemplando os atalhos e desvios do trajeto, muitos seriam aqueles aos quais deveria agradecer. Ninguém, no entanto, que pudesse lhe cobrar dívidas.

Era um homem livre.

O mundo, da forma como o via, era romântico em suas miudezas. Ele, verdadeiramente miúdo, imaginava, portanto, também ser visto dessa mesma forma. Na forma como concebeu o mundo para o qual foi concebido. Na forma como durante tanto tempo procurou se esconder do mundo. Na forma como o mundo, à sua forma, o protegeu de tudo aquilo que temia, quando pensava justamente não temer nada que não fosse o mundo. Por tudo isso, naturalmente, sempre esperou o melhor dos homens e das coisas, como se os homens e as coisas fossem os homens e as coisas que ele via, da forma romântica como via o mundo tanto quanto por ele esperava ser visto.

Quando o mundo se tornara grande e ele ainda mais miúdo, ficou confuso. O que havia mudado não sabia, novamente, se por ele ou pelo próprio mundo. Sabia apenas que, antes mesmo de notar as pequenas modificações, tudo já se tornara estranho, distante, sem foco. Seu romantismo, seus sonhos, sua missão, tudo havia se apequenado, se tornado duvidoso e, enfim, rarefeito.

Mas o que havia mudado no mundo, senão a forma como ele o concebera? E mudada a forma do mundo, como haveria ele de modificar sua própria forma e lugar no mundo? E mudado o homem, mudado o mundo, ou, mudado o mundo mudado o homem? Fosse o que fosse, o que mudar quando tudo muda?

Era um homem deslocado.

Lembrou-se dos tempos em que ainda vestia calças curtas e o mundo era completamente seu. Naquela época repleta de sonhos, mas também de dificuldades, o menino que um dia fora era capaz de dominar o que quer que fosse contando apenas com os recursos de sua imaginação singela. O que ele via, o que sentia, o que sonhava; o que podia, o que sentia, o que almejava; o que sabia, o que sentia, o que criava. Era ele. O dono (do que sentia).

Chegada a noite o calças-curtas experimentava certa angústia. Apagada a luz, disfarçada a forma das coisas, o que era óbvio cedia vez ao incerto e a certeza apenas uma misteriosa sombra a intimidar o calças-curtas encolhido na cama. O medo das sombras, com o passar dos anos, sumiu. Mas o medo perante a dúvida, por certo, o acompanharia das calças curtas ao paletó. Na vida adulta, porém, não havia um interruptor que acendesse a luz de sua segurança e lhe trouxesse de volta a paz e certezas de antes. Definitivamente não.

E de fato, nada mais era como antes, nem mesmo ele. Ele, não se sabendo mais quem, sentia-se como um personagem importado de outro livro, vivendo outro drama, em outro mundo. À deriva. No desconhecido. Contudo, ainda que se sentisse algo de fictício, sabia de sua verdade, de sua realidade. Sabia-se pleno e ardente, por isso vivo. O personagem que lhe fora imposto, portanto, não partia em busca de um autor que lhe conferisse vida e sentido – como numa trama pirandelliana. Seu desejo, como nos tempos da calça curta, era tão somente o de um mundo onde pudesse atuar.

Era um homem insólito.


quinta-feira, julho 12, 2007

Contos de Quinta...

Dulcinéia

Na cidade feia e suja armada de concreto e cinza andava um homem igualmente feio e sujo, concretamente cinza, ziguezagueando invisível por entre esquinas, crimes e dramas alheios. Seus olhos fundos de perdição diziam muito mais sobre si mesmo que os lábios purulentos e a língua fétida de álcool e maledicências poderiam revelar sem trair, com palavras desconexas, a razão de seu degredo.

Certamente nenhum folhetim jamais tratara assim de seu mal e justo por isso eram poucos, talvez nenhum, os capacitados a reconhecer naquele dejeto humano o retrato em preto e branco do amor, marcado em seus contrastes de claro e escuro pela desilusão irreversível do abandono. Não, não havia espaço para sua história no colorido pastel do romantismo nem sombra que encobrisse sua forma distorcida de culpa e falta pela mulher perdida. Encontrava-se em um beco sem saída e, assustando os gatos, foi ao chão tamanha era a loucura.

Era um pedinte, sobretudo de emoções. Após perdê-la, no segundo posterior, já percebia sua vida declinando e, como soubesse de um antes e depois derradeiro, via seu futuro supostamente vibrante escorrer por entre os dedos em uma mistura fugidia que congregava falta de vontade e falta de razão. Como de fato se provou, o desleixo por si mesmo levou o dito homem a uma extrema solidão que, ironicamente, estava submersa em um mundo de transeuntes, automóveis e hostilidades no qual sobrevivia a esmo.

Entre buzinas, xingamentos e palpitações, a metrópole urbana parecia compor a trilha sonora de sua vida como uma ode aos caos na qual imperava, entre agudos ferinos, o tom grave da ausência e da falta de sentido. Vez por outra, quando via singrar em pleno céu a lua dos namorados, escutava o nome de sua amada nos assovios noturnos do vento e pensava ser ele o verdadeiro cantante, em busca de versos que levassem até ela sua voz melancólica e sua mensagem de perdão.

Foi quando acordou subitamente e não acreditou que tudo tivesse sido apenas um sonho e que a mulher era sua, outra vez. Uma onda de adrenalina invadiu aquele corpo dolorido enquanto uma onda de alegria dilacerou aquela mente embotada pela tristeza e confusão. Levantou-se eufórico e, cantarolando o nome de sua eterna amada, pôs-se a caminhar pela avenida na direção de seu destino.

Para ele o momento era de regozijo, de alívio e, sobretudo, de reencontro consigo mesmo. Para os transeuntes habituados com o local, contudo, era apenas mais um dia no qual o mendigo maluco acordava e saía pelas ruas gritando o nome "Dulcinéia".


quinta-feira, julho 05, 2007

Contos de Quinta...


O Bom e Velho
Heterossexual
Masculino

Para Gigi.





Esta é uma coluna basicamente dedica à instrução das mulheres sobre as manifestações de vida de um bom e velho heterossexual masculino. Não quero dizer com isso que sua leitura não seja indicada aos homens de plantão que, durante sua pesquisa sobre pornografia na internet, acabaram caindo nesta página virtual sem mulheres nuas. Para estes bravos exemplares da boa e velha heterossexualidade masculina o material publicado aqui é, sem dúvida alguma, de substância tão corriqueira quanto é, para a palma de suas próprias mãos, a composição de seu próprio esperma.

Logicamente, se você me pergunta “o que é um bom e velho heterossexual masculino?”, presumo que seja do sexo feminino ou que, na melhor das hipóteses, ainda não percebeu que joga no time “errado”. Nós, bons e velhos, simplesmente agimos por instinto e não falamos muito a respeito de nós mesmos. Aliás, diga-se de passagem, “conversar”, “explicar”, “se abrir”, são verbos que não se encaixam em nosso perfil.

Esta coluna, ao discutir comportamentos típicos dos bons e velhos, é quase uma mostra de sensibilidade e, assim sendo, um arranhão na boa e velha imagem heterossexual. Contudo, explicada em nossa boa e velha linguagem, a revelação de tais angústias deixa de ser comprometedoramente sensível para se tornar um bastião de nossa imutável estirpe.

Bem, como introduzi tudo assim de forma curta e grossa, gostaria de esclarecer que a discussão de hoje se concentra na boa e velha comunicabilidade heterossexual masculina e seus principais vértices temáticos. Inicialmente, devemos levar em conta fatores bastante simples: homens falam pouco. E homens nunca falam sobre homens. Homens só falam sobre mulheres e viados e, quando falam de homens, é para acusá-los de serem viados.

Sim, somos realmente seres muito simples, por isso somos tão contidos. As mulheres, por outro lado, são mais complicadas, quer dizer, complexas, e por isso falam pelos cotovelos. A grande verdade é que nós, bons e velhos, não perguntamos. Nós presumimos. Por isso não pedimos informação na rua e nem gostamos de debater nosso relacionamento. Nossa carga de responsabilidade se esgota na assinatura do cheque – ato solitário e mudo – e nunca ousa adentrar, de fato, a seara do planejamento. Nós, bons e velhos, odiamos vendedores de loja justamente por isso. Pelo excesso de comunicação e comprometimento. Não queremos “bom dia, senhor” nem sorrisos ou sugestões. Queremos apenas trocar uma quantidade de dinheiro por um blusão verde e só – e queremos o direito de chamá-lo de blusão!

Mas existe algo que nos torna eloqüentes e capazes de articulações sem fim, condensando, de uma só tacada, toda a base de nossa filosofia de vida: o bom e velho humor heterossexual masculino. Não se encontra uma única rodinha de bons e velhos em que não predomine este tipo peculiar de comunicação, cuja base fundamental é o binômio vigilância/duplo-sentido. É preciso dizer, inclusive, que a força desta dinâmica é tão feroz que, uma vez instaurada, deixa o ambiente sob um constante estado de tensão no qual ninguém se preocupa com nada mais que não seja “evitar dar mole” para o outro.

Este interessantíssimo modus vivendi é tão antigo – daí o termo “bom e velho” – que remonta, de fato, aos tempos pré-históricos. Recentes estudos demonstram que o processo da fala se iniciou justamente por conta dos impulsos heterossexuais masculinos (nesse tempo “bom e jovem”) manifestos nos primeiros homo sapiens sapiens. Tal fato “deu-se” quando na Terra ainda preponderava o homo erectus – homossexuais de pau duro que dominavam o planeta há cerca de trinta milhões de ânus atrás – e os primeiros bons e velhos sentiram vontade de se manifestar a respeito de seus estranhos comportamentos.

Foi quando nosso “pai ancestral” conseguiu articular o primeiro “hum...” (que hoje em dia vem acompanhado de um “sei não, hein...”) ao ver um homo passando serelepe que, finalmente, o homem aprendeu a se comunicar por meio de signos linguísticos complexos e deu os primeiros passos em direção às piadas de viado e à construção de toda uma sociedade dinâmica e próspera, pautada em pauladas na cabeça da mulher amada, carne assada e arte viril em cavernas.


Sim, realmente o mundo mudou muito desde a "Era de Ouro Pré-Histórica". Mas somos seres muito simples e fiéis aos nossos proclames. Somos resistentes. Somos imutáveis. Somos bons e velhos heterossexuais masculinos.


* texto de Omar Kassin, o Turco do Bigode. Não nos responsabilizamos por suas opiniões. Em caso de insulto, entre em contato com o Sr. Olavo Lebre Cabrito - o advogado das celebridades. Ou simplesmente leia o MANIFESTO PELA IRONIA repruduzido no fim desta página. Obrigado.

quinta-feira, junho 21, 2007

Contos de Quinta...

para Fabrício Fortes

Se a menina tivesse dito sim, teria encontrado mais que uma mulher; teria arrebatado uma cúmplice para todo e qualquer momento, para toda e qualquer ilusão de fim-de-noite. E teriam tido filhos, três ao todo, que lhes trariam conforto na velhice e muita dor de cabeça nos duros tempos precursores. Teriam sido felizes, o mais possível, se é possível fazer tal afirmação sem causar ao menos uma mácula de tristeza no semblante.

Se a banca tivesse dito sim, teria encontrado mais que uma carreira; teria vivenciado uma intensa paixão pelo trabalho e se tornado um físico de extremo valor. E teria proferido palestras, incontáveis, que teriam influenciado determinantemente a vida de pelo menos oito jovens, um dos quais revolucionaria, dezessete anos depois, os fundamentos da dinâmica aero-espacial. Teriam sido bem-sucedidos, ainda que tivessem merecido mais, se é que alguém realmente pode ser mais sem inúmeras subtrações.

Se tivesse dito sim a si mesmo, e se dedicado aos prazeres da pintura, teria encontrado mais que um hobby; teria se deparado com a poesia da vida, a magia das pequenas coisas e a complexidade dos detalhes. E teria se aposentado, e comprado uma casa no campo, onde haveria de colher flores e frutos dispersos, posteriormente impressos em aquarelas de natureza morta. Teriam sido expostos, e assim admirados os tais quadros, se não é mistério que toda arte esconde algo do qual se tem medo.

Mas foi o político quem disse sim à guerra e atravessou, tal qual a bala de fuzil que matou o jovem soldado, todos os planos de uma vida pacífica e tranqüila, que nunca haverá de ser nada para além de um conjunto de incertezas derrubadas numa tarde qualquer de maio.


quinta-feira, junho 14, 2007

Contos de Quinta...


Poucos nesse mundo mereciam tanto a derrota como ele. Logo ele, que sempre esperou muito da vida, que sempre dela quis mais, sempre assim o quis porque da vida, muito comumente, recebera mais do que o merecido. Quantas vezes ouviu, para seu embaraço íntimo, vozes tantas a parabenizá-lo por suas vitórias, conquistadas, diziam eles, em uma vida tão difícil. Aliás, esse era seu maior problema: nunca achara a vida difícil de verdade, pois, em toda sua jovem experiência, mesmo as dificuldades se apresentaram demasiado fáceis.

Assim, tendo a vida se passado como mero campo recreativo de sua existência, agraciada com generosas surpresas e reviravoltas miraculosas, via na derrota um ente mitológico e, com certo desdém, podia-se dizer que aguardava com curiosidade o momento dessa experiência tão comum ao ser humano. Não que se considerasse realmente alguém alheio ao sofrimento, ao risco da privação; ao contrário, guardara consigo cada detalhe sórdido de sua vida marcada pela precariedade material. Porém, nunca duvidara do teor dessa “injustiça”, assim como jamais se concedera o direito de não revertê-la com toda pompa e glória.

Se é certo que, ao longo de sua vida, fazia o maior esforço possível para não olhar ninguém “de cima”, é mais certo ainda afirmar que jamais encontrara razões para olhar o que quer que fosse “de baixo”. Contudo, de tanto enquadrar o mundo na altura dos seus olhos, acabou se perdendo em miragens.

Sua forma de enxergar a vida era bastante simples e obviamente perigosa, pois que fundamentada na certeza de um passar de anos protocolar, cujos desdobramentos serviriam tão somente para coroá-lo ante tudo e todos. Sob esta orientação, dava por certo que seu estado de privação anterior seria vencido, vingado até, pelo privilegiado entrosamento dos neurônios e sinapses que – tão breve quanto breve é a vida – sem dúvidas haveriam de levá-lo ao triunfo. E empunhava publicamente tais palavras como faz um crente em louvor ao seu deus.

Protegido por essa conveniente ilusão, esse alguém inconformado em ser ninguém acreditava, na realidade, ser um alguém para além, restando à vida tão somente a tarefa de confirmá-lo. Entretanto, a única confirmação que a vida traz consigo, atropelando o bom e o mau; o rico e o pobre; o jovem e o velho; é a confirmação de que viver implica em sofrer, e de que sofrer faz da vida um insólito desafio no qual se ganha com as derrotas.

Quando deu por si abraçou o abalo. Obviamente lamentava muito por ele mesmo, porém, doía mais que tudo a dor de sentir-se um farsante; do constrangimento súbito que sentia em relação a todos, a todos aqueles que lhe deram ouvidos e, candidamente, conferiram algum crédito à imagem que nele encarnava criador e criatura. Para ele, que certa vez afirmara com toda sua convicção não ter dúvidas a respeito de si mesmo, o momento dessa constatação foi tão chocante que implodiu em incertezas.

Muitos dos que se encontravam à sua volta, é verdade, foram seduzidos pelo vigor de sua poética impetuosidade; outros, no entanto, procuraram incessantemente alertá-lo. Ele, por sua vez, só acreditava em si mesmo. Com isso, os caminhos que lhe conduziram ao caos eram tão triviais que, se os confessasse em voz alta, apenas revelaria a debilidade de suas ambições e, por certo, despertaria desprezo nos ouvidos mais próximos. Estava pateticamente entregue, e se sentiu só. Procurou pelo futuro e não viu nada; olhou para o passado e sentiu vergonha.

E naquela noite, como em tantas outras, dormiu um sono sem sonhos, incomodado com o peso da vida sobre seus ombros desacostumados. Dessa forma, quando enfim constatou o abismo existente entre tudo aquilo que imaginava ser e o que ele de fato era, dedicou-se a refletir, reconstruindo passo a passo, com nova perspectiva, a extensão de sua breve trajetória.

Porém, a despeito da busca incessante, das intermináveis noites em claro, das lágrimas ao mesmo tempo conscientes e autopiedosas que derramou em seu próprio nome; apesar do desejo quase infantil de voltar atrás com tudo aquilo, para o seu desgosto uma dura verdade foi cuspida naquela face repleta de questionamentos: sua única grande vitória foi ter derrotado a si mesmo.

quinta-feira, junho 07, 2007

Contos de Quinta...

Continente
Perdido


Todo homem é uma ilha cercada de silêncio e ansiedade. Uma ilha em preto e branco onde despontam vívidos, na exclusividade das cores, mil e um corais de brilhos e tons sedutores tanto quanto mortalmente cortantes, que tingem os pés de vermelho sangue e lavam a sal as feridas do caminhante.

Todo homem é uma ilha e mira a linha do horizonte. Até onde alcança a vista vê traçado, entre dois pontos flutuantes, uma reta de expectativas ao longe, inalcansável, inatingível, utopicamente eqüidistante do nada e do lugar nenhum. O homem que nela habita olha e, sem sequer molhar os pés, deseja ultrapassar o mar pois sente e sonha seu o continete para além.

O homem se prosta ao sol da ilha e engrossa a crosta escarpada que se desenvolve recobrindo sua pele ultra-sensível. Ele pensa proteger-se, com os sedimentos de sua armadura, do sol e da chuva, dos homens e deuses, conselhos e mandamentos, do sim e dos nãos, enfim, do amargo e mal-cheiroso monumento da vida, cujo sentido só se completa e compreende pelo seu perder cotidiano.

Todo homem é só espinho circundado de perfume e justamente por isso sente medo da aproximação alheia. Ele sabe que o olfalto engana, pois que inebria e carrega consigo um corpo em direção a outro, quando então mesclam-se os odores e a apoteose conjunta declina, mortalmente, para um sem número de perfurações mútuas. Ao final, apenas o cheiro de incipiente putrefação na carne morta.

Todo homem teme, e sofre, e treme, e sonha e traz no cenho a trama de uma vida e o trauma de seu andamento. Na solidão de seus sentimentos, ansioso por compartir, ele cala para que também não ouça e fantasia pelo simples medo do óbvio. Ele isola o mundo de si e deixa partir, dia-a-dia, o pouco que resta de sua beleza nativa, cativa dos trâmites e exigências da terra firme que se encontra no além-mar dos seus sonhos.

O homem se mostra e chora defronte ao espelho d’água onde vê refletidas mil e uma imagens de si mesmo, que brilham no canto escuro de mil e uma outras ilhas igualmente solitárias em suas mil e uma dores particulares tão comuns. O homem brilha em outras ilhas, mira outras linhas e se crê a milhas quando, na verdade, faz de abismo o centímetro que dele separa tantos outros igualmente crentes de uma solidão que consiste, ao final, na única fronteira de um único continente. Talvez perdido para sempre...

quinta-feira, maio 31, 2007

Contos de Quinta...

Para Rapazes
e
Moças

Era o oposto do que era sempre, mas como sempre fizera, refugiou-se em si mesmo. Dessa vez, porém, voltou-se ao interior sem idolatria, piedade ou dureza, pois procurava apenas a razão. E dos esvoaçantes grãos de areia ao seu redor, lépidos eólicos flutuantes, sentado na beira da pedra ele extraiu, sem ao menos se dar conta, a única verdade que pôde: o trânsito era intenso.

Diante dos seus olhos, como miragens da vida real, transitava a própria vida a completar, com o peso caótico de seu balé, não mais o rotineiro movimento de rotação com o qual já se acostumara, mas uma translação completa, repleta de novas outras rotações. E como o vento explicasse a vida tanto quanto os ínfimos grãos de areia expressassem o homem, ele percebeu a magnitude do detalhe tanto quanto a vulgaridade da pintura – e derramou uma lágrima de paixão.

A pedra enegrecida pela gota transparente, que dos seus olhos acabara de cair, fez do ambiente um palco sensitivo no qual destacava-se, como atração meio-mórbida meio-lúdica, um inquieto rabo de lagartixa a pular desgovernado. Desacompanhado do corpo que, um dia, fora sua extensão natural e inconteste, o rabo debatia-se sobre a pedra e nada despertava naquele garoto para além de um certo desconforto com tal luta espasmódica.

Ao seu redor transitavam as nuances do novo tempo, e sufocavam-no as exigências de um novo homem: ele, o que era, já não era o esperado, e o que viria a tornar-se, esse, ainda era inesperado para ele. De qualquer maneira já eram dois naquele um melancólico, vivendo em contradição, sentados sobre a pedra, aos estilhaços de areia, sob os auspícios do vento, reificando com suas ambigüidades o próprio ciclo da vida.

De certa forma, ele acreditava, sofria e vivia naquele momento um drama semelhante ao da lagartixa. Decepado contra a vontade, assistia impotente parte de si debatendo-se, desgovernada, desesperada, descrente. Por certo a lagartixa sofria com a perda do rabo – pensou – sobretudo porque dela era parte concreta e, sendo assim, este abandono só poderia lhe trazer sofrimento. Concluiu que era como a pobre lagartixa, mas faria de tudo para conservar-se por inteiro, como sempre fora. E sorriu satisfeito.

Do colorido cego que transbordou de seus lábios, contudo, fez-se o cinza na pedra escura e, a brilhar cintilante e solitária, aleijada, estava ela, a lagartixa. Olhando para o homem a sua frente, gélida e impávida, perguntou porque ele insistia tanto no que já ficara para trás, se contorcendo pelo que já passara e não havia mais de retornar. E subitamente foi embora.

Quando se levantou da pedra vislumbrou no horizonte toda a dor e satisfação que lhe aguardavam. Ao retesar os músculos, e finalmente movimentar o corpo, pela primeira vez sentiu-se consciente de sua jornada e, sobretudo, dos sacrifícios que impunham percorrê-la. Deu o primeiro passo e, ao seguir adiante pelos caminhos da vida, tão logo entendeu que, diferente do que pensava, no lugar da própria, ele era mesmo o rabo da lagartixa.

quinta-feira, maio 24, 2007

Contos de Quinta...

De: Nestor
Para: Humanidade
(carta 02)


Me chamo Nestor Loureiro e conforme expliquei a vocês (malditos seres humanos de uma figa) em minha primeira carta, tenho o desejo e a convicção de que os homens serão varridos do planeta por um cataclisma ambiental logo um dia após a minha morte. Entretanto, ser humano que sou desde 1910, penso dia-a-dia, cada vez mais, no fim dos dias meus e, logo, também de todos os habitantes do globo. E ao pensar nisso, de forma mais que contraditória, sinto pena e raiva desses seres pensantes e irremediavelmente irracionais que vivem a negação de seu próprio fim, quando não passam de meros animais pretensiosos.

No entanto, diferente de nós, os outros animais não possuem consciência da finitude. Estão alheios ao término irremediável da vida, ainda que sua luta diária pela sobrevivência, aos olhos de um iludido humano, pareça ser um recado diário do fim. Nós, na qualidade de seres autodivinizados, inconformados com uma morte comum, com a fome dos vermes e a decomposição orgânica, sacrificamos nossa única certeza, que é a de se estar vivo, em nome de uma incerteza supostamente melhor. E eterna.

O que importa mesmo dizer – e peço perdão por tornar explícita essa digressão sem contexto – é que minha maneira de lidar com o problema da finitude é bastante simples e em perfeita consonância com meu método filosófico. Não acredito em nada para depois, não creio viver uma nova vida em um belo campo de golfe, cercado de anjos e outros seres assexuados, capazes de realizar uma série de façanhas tão incríveis – e tão afastadas da minha condição de simples habitante do paraíso – que resultaria, sem dúvidas, em uma eterna fonte de humilhação. Quase como viver em uma ditadura militar latino-americana financiada, treinada e legitimada pelos Estados Unidos.

A outra opção, se me lembro bem, também não é das mais agradáveis, pois resultaria em passar o resto da eternidade trabalhando em uma espécie de mina de carvão, comandada por um sádico troglodita chifrudo que não pensa duas vezes em botar no seu cu. Bem parecido com o capitalismo, eu diria, mas sem os atrativos de tudo aquilo que te enfiou naquele lugar: o sexo, as drogas, certas tendências políticas, a bebida e o cigarro, a difamação, o palavrão, a violência, o ócio, o vício, a vaidade, a heresia, a insensatez, a homossexualidade, a gargalhada, as segundas e terceiras intenções, a rasteira, a água fria, o sol raiando... em resumo, o controle e a abstinência total. Seria como viver da maneira como prega a Igreja e o empresário, só que levada a cabo pela força do demônio.

Assim, ciente de que a vida é uma experiência única, finita e insensata, procuro fazer jus a todo o esforço evolutivo que a natureza realizou para me conceder a única graça que um ser humano recebe, que é a da própria vida. A mim parece tão simples, mas infelizmente essa é a única dádiva da qual temos conhecimento e que, entretanto, é renunciada por um grupo espetacular de pessoas, ao sabor de seu arbítrio e ao léu da imensidão.

Eu, como já disse, não acredito que haja um ser superior e observador que guarde consigo todos os meus predicados e todos meus defeitos (e para quem os contará?). Meus atos valorosos e os fatos mesquinhos. O lobo na pele do cordeiro e o cordeiro na pele do lobo. Não me deixo possuir por um juiz divino ou júri de homens. Possuo, sim, um público interno. Ele é tão vasto e diverso quanto o número de células, e neurônios, e átomos, e prótons, e elétrons, que vibram e multiplicam-se incessantemente em meu favor. Eles, nesse exato momento, gargalham – alguns vociferam – da estupidez comum, e deles têm pena. Eles, nesse exato momento, esperam apenas pelo seu próprio fim.

Os homens não merecem a vida, nem aqui, nem acolá, pois só fazem destruí-la com seus anseios sobre-humanos e seu comportamento vulgar. Entretanto, caso me encontre absolutamente errado, receberei mais do que pedi e viverei, sob nova forma, outras oportunidades de explorar ao máximo a tal nova existência – ainda que seja ao lado dos malditos anjos assexuados ou do capataz capitalista.

O alento é que enquanto houver consciência, há resistência. Para quem valoriza a mente já basta. Já para os que curtem sapatos...


* para ler a primeira carta de Nestor Loureiro clique aqui.

quinta-feira, maio 17, 2007

Contos de Quinta Especial...

Cristiano, 2001
(extraído do diário secreto de T. Botelho Pinto)

Enquanto a Florence se debulhava em lágrimas diante de uma pilha gigantesca de garrafas de água, caixas de refrigerante e cerveja, me ocorreu a possibilidade de que poderia ter sobrado, também, uma ou outra latinha de Red Bull. Num arroubo misto de falta de superego com utilitarismo lúdico, revelei minhas intenções pra ela e recebi em troca, como já era previsível, um olhar misto de incredulidade desesperada com ódio circunstancial. Via-se claramente que, por nossos humores distintos e polarizados, a festa tinha sido uma doideira só. E foi, como naturalmente acontece quando é o sangue quem macula a corrente alcóolica.

De fato, tudo tinha sido absolutamente incrível até aquele momento: mais de 300 pessoas animadas e satisfeitas, entre elas muitos de nossos amigos, uma lua cheia estonteante, além da boa música que parecia embalar o espírito altruísta da noite...

O caso é que a festa tinha o objetivo fundamental de arrecadar fundos para um orfanato e foi, a princípio, idealizada como uma simples reunião de amigos dispostos a ajudar a miserável instituição. Porém, uma vez que eu tinha sido condenado pela justiça a prestar serviços comunitários e, por conta disso, obrigado a ser um dos organizadores do evento, propus uma grande festa, ambiciosa e arriscada, mas certamente compensadora. Obviamente os recursos eram escassos e não foi sem muita resistência que os convenci a pegar um pequeno empréstimo para realizá-la.

No afamado dia, porém, o público presente indicava, para nosso alívio e felicidade, a inevitabilidade do mais absoluto sucesso. Mesmo Florence, a ingênua e prestativa psicóloga do orfato que sempre me olhara com desprezo, sorria e insinuava, ao som do funk, que hoje seria o o dia de “nos conhecermos melhor”. A gatinha estava no papo.

Sei lá, talvez fosse a malévola contribuição do álcool no organismo a razão de nossa descontração catártica durante toda a festa. Do que tenho certeza e não posso fugir, contudo, é o fato de que ter ficado tão doido assim ao longo da noite me salvou de algumas tensões inerentes à organização e, em especial, de padecer da angústia relacionada às expectativas de sucesso, menos simbólicas e mais financeiras, que giravam em torno daquele arriscado evento. Indiscutivelmente, a excentricidade de meu comportamento causou no restante dos organizadores a sensação de que, para o bem geral, era melhor não pedir nada pra mim e, se possível, até fingir que não me conheciam. Assim se deu nossa interação e ninguém fudeu a vida de ninguém durante as seis horas em que a festa rolou.

Bem, na verdade mesmo, é preciso confessar que realmente algumas pessoas se fuderam. Isso de fato foi comprovado lá pelas tantas, quando tudo já se encaminhava para o fim, enquanto eu e Florence nos encaminhávamos para o segundo andar da festa. Com o intuito de compartilhar o triunfo da festa junto aos outros organizadores, fomos diretamente para o bar central, onde um grupo já estava reunido. Demoramos a perceber o motivo do contraste entre nossa imensa alegria e o ar de decepção que tomava conta do rosto de todos. Foi quando, de repente, sem ao menos trocarmos uma só palavra, a ingênua e alcoolizada Florence desviou o olhar para o canto esquerdo, constatando horrorizada a enorme pilha de garrafas d’água, caixas de refrigerante e também de cerveja, tristemente empilhadas no fundo do salão. Ao nos explicarem o drama, isto é, que a bebida encalhara por conta de um erro grotesco de cálculo, minha pequena caía no choro enquanto eu agradecia aos céus o fato de que, naquela noite, o primeiro a se fuder não tinha sido nem eu nem ela, mas apenas algumas pobres criancinhas sem pai nem mãe.

Diante da merda já grassada não tive outra escolha além de partir, eu e minha doideira, para o bar do terceiro andar, onde poderia haver alguma latinha de Red Bull encalhada. Claro que para isso fui obrigado a abandonar momentaneamente a chorosa Florence, além de, com o coração partido, ter que ignorar o hercúleo trabalho que vinha sendo feito pelos outros organizadores naquele exato instante – subindo e descendo desesperadamente, do segundo para o primeiro andar, com as intermináveis sobras do bar nos seus cansados ombros. Parti repleto de orgulho por meus companheiros, certo de que todos sabiam da minha presença em espírito naquela árdua tarefa.

Justamente quando subia as escadas encontrei Cristiano, o irmão de uma das organizadoras, que estava trabalhando no bar. Procurei fugir do contato visual tarde demais e fui abordado por ele, que me pediu uma carona pra ir embora. “Que merda” – pensei de pronto – e disse a ele que não tinha problemas, uma vez que seguiríamos na mesma direção. Porém, fiz questão de ressaltar que a carona não seria até a porta da casa dele e que apenas o deixaríamos perto, para evitar maiores desvios em nosso trajeto. Ele concordou sem pestanejar e, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, escapei de maneira espetacular rumo ao tão sonhado energético.

Ao reencontrar Florence relatei o episódio do Cristiano. Ela não curtiu muito a idéia, mas ainda assim me parabenizou pela iniciativa de limitar o percurso da carona. “Tudo o que eu quero nessa vida é tomar um banho, deitar e fingir que esse dia nunca existiu” – disse ela ainda com os olhos inchados e vermelhos de choro. Rapidamente propus à Florence que fôssemos embora, dissimulando contudo minhas intenções de “esquecer” o Cristiano por lá e de sublimar, ao chegar em casa, seu desejo de “dormir”.

Quando já estávamos quase escapando, praticamente a um passo da porta de saída, pintou o Cristiano. Fiquei muito puto e, enquanto dava um tapinha no ombro dele afirmando “eu ia te procurar lá fora”, pensei “como é que ele achou a gente”?! Mas o pior é que junto com o Cristiano estava um outro cara, mais jovem e mais desconhecido que qualquer um da festa. Fiquei desconfiado e não deu outra: o filho-da-puta do Cristiano se apressou em apresentar o “amigo”, feito ali mesmo naquele evento, e anunciou que tinha prometido a ele que os dois iriam embora juntos. Concordamos dizendo que então desceriam juntos quando nossos caminhos tomassem rumos diferentes – e entraram no carro fazendo um irritante alvoroço. Em menos de 30 segundos já tinha ódio daqueles dois – que pediam pra mudar a música, aumentar e depois baixar o volume, além de mexer com uns travestis que estavam parados na esquina. Mas o pior ainda estava por acontecer.

Após já termos avançado satisfatoriamente em nossa viagem de volta, a porra do Cristiano anunciou que tinha perdido a carteira, provavelmente deixada no local da festa. Tentei convencê-lo a voltar lá no dia seguinte, mas como era de se esperar, ele disse que tinha prendido sua chave de casa em um dos fechos da carteira. Me adiantando às considerações de Florence, propus aos dois que descessem ali mesmo onde estávamos, uma vez que fazer o retorno nos custaria um passeio por quase todo o centro da cidade. Eles insistiram pra voltar lá, e Florence acabou cedendo visivelmente consternada.

Durante o percurso de volta, após nos perdermos sei lá quantas vezes, imaginei que enfim tinha me fudido de vez, quando então o Carona, recém amigo do Cristiano, começa a choramingar preocupado com o horário. Apelando para todas as técnicas de melodrama conhecidas pelo homem moderno ele implorou que o levássemos em casa, com a justificativa de que morava em um lugar tão perigoso, mas tão perigoso, que para os miseráveis que faziam o tal caminho naquelel horário a morte era quase uma benção. E foi assim que durante todo o percurso de volta até o local da festa ouvimos os papos mais brabos da face da terra, com inesquecíveis momentos cênicos protagonizados pelo Carona. Estávamos definitivamente na paranóia com o clima sombrio daquele inusitado jovem. Mas graças a Deus o pior de verdade ainda estava por acontecer.

Paramos em frente ao sobrado onde outrora tudo havia acontecido quando o Cristiano desceu do carro e, após algumas batidas na porta já cerrada do local, finalmente entrou. Sem perder tempo, obedecendo aos meus instintos mais primitivos, sugeri ao Carona que também adentrasse o sobrado e ajudasse Cristiano. Florence olhou pra mim com pavor, enquanto o Carona, na maior cara-de-pau, me disse que “não precisava”. Olhei aquele merdinha sentado no banco de trás e vomitei um discurso emocionado sobre a beleza da solidariedade. Florence me olhou horrorizada quando finalmente fechei meu raciocínio lembrando as virtudes solidárias de Cristiano, em especial, do fato dele nos ter convencido a levar são e salvo aquele frágeil jovem até a porta de sua residência. Era o que ele queria ouvir.

Mudando radicalmente a soturna expressão de sua face, o Carona sorriu amavelmente e enfim saiu do carro. Confesso que ainda hoje recordo com o coração repleto de ternura aquele momento todo especial, quando então ele andou em torno do automóvel e, piscando o olho para Florence, disse “vocês não vão deixar a gente aqui, né?”. E respondi com a mais tenra voz um humilde “claro que não”. Minha pequena ainda teve tempo de me lançar um último olhar de incredulidade. Foi a minha vez de sorrir.

Assim que ele sumiu de vista olhei pra Florence e disse “manda brasa”. Confusa, minha adorável menina disse que não podia fazer aquilo, que era muita sacanagem, que o Cristiano era irmão de uma das organizadoras, que se ele não achasse a carteira e a chave não poderia voltar pra casa, que a gente prometeu esperar, blá, blá, blá. Dei-lhe um beijo na testa, segurei sua mão e disse que tudo iria dar certo se ela engatasse a primeira e pisasse no acelerador. E o carro partiu.

Uns duzentos metros a frente o sinal estava vermelho e paramos. Lembro que ainda estava tentando acalmar Florence quando avistamos pelo espelho retrovisor as silhuetas do Cristiano e de seu jovem amigo correndo em nossa direção. Quando os dois já estavam tão perto do automóvel que seus gritos de “espera aí” podiam ser ouvidos perfeitamente, arrancamos com o carro e eu gargalhei como um verdadeiro louco.

Convicto de que tinha vivido um dos momentos mais brilhantes da minha vida, lamentava apenas o fato de não ter um cigarrinho pra comemorar. Contudo, quando me virei pra pegar um CD no banco de trás, qual foi minha surpresa ao constatar o maço de cigarros do Carona, praticamente inteiro! Tomei um dos seus emprestado, acendi e me surpreendi novamente ao perceber uma nota de dez reais alocada no plástico do maço. Me peguei pensando sobre como aqueles dois voltariam pra casa sem dinheiro, quando dei conta que havia esquecido a latinha de Red Bull na porra do segundo andar. Diminui o ar condicionado do carro, botei minha canção predileta e, antes de me ajeitar confortavelmente no macio banco de couro, já quase na porta de casa, ainda tive tempo de sentenciar: “maldita lei do retorno”.

quinta-feira, maio 10, 2007

(extraído do diário secreto de T. Botelho Pinto)
Tenho poucos motivos para me achar um ser humano exemplar. Naquele momento mesmo, diga-se de passagem, acabara de completar com sucesso uma de minhas artimanhas mais odiosas e, ciente de tudo o que havia se passado, caminhava serenamente o restante do quarteirão ainda com meio cigarro entre os dedos. Como sempre estava muito chapado e sorri ao lembrar do Carroba indo embora junto comigo pouco antes, lamentando a súbita interrupção do nosso encontro. Sem sombra de dúvidas ele era um cara legal mas, naquelas circunstâncias, não hesitei em fazer uso da famosa “manobra de fuga nº 04”. Joguei a guimba (aproximadamente um terço dela) fora, dei um alô pro porteiro e, menos de cinco minutos depois de ter saído com o dito cujo, já estava eu de volta ao lar, merecedoramente só.

Imediatamente sentei no sofá, peguei os livros de volta e decidi apertar um beck – “o beck da vitória”, como disse pra mim mesmo em voz alta. Quando finalmente achei o isqueiro e acendi o baseado, senti o tipo de regozijo que apenas os canalhas são capazes de experimentar e novamente soltei uma comedida risada. Na verdade, a consciência de minha vilania bem sucedida não impedia que eu mantivesse, paralelamente, uma visão mais lúdica sobre o que se passara. De fato, findo o beck, já naquele momento posterior em que o tabaco é a estrela, modificara radicalmente minha concepção sobre o ocorrido, passando a acreditar piamente que fora eu o vitimado no episódio carrobaniano – quando então, para protegê-lo de seu pecado, ofereci a outra face em sincero sacrifício. No meio do cigarro fui buscar um café, já absolutamente convicto de minha inocência e, por que não dizer, maravilhado com a admirável pureza dos meus sentimentos.

O caso é que o Carroba apareceu do nada. Porra, imagine só, você, na sua casa, largadão, de cueca no sofá assistindo TV, tudo uma grande zona e, como num passe de mágica, aparece o Carroba. “Puta-que-pariu” – foi o que pensei. “Sobe aí, cara” – externalizei pelo interfone. Tinha que ser rápido, já que contava com apenas 44 segundos, que era o tempo de subida do elevador, para dar uma geral no aspecto de holocausto nuclear da casa. “Filho-da-puta” – soltei faltando apenas 8 segundos para a chegada deste velho amigo de infância.Na verdade, na verdade mesmo, o Carroba nem estava tão errado assim.

Fiquei de devolver uns livros que ele havia me emprestado, mas acabei me afeiçoando tanto por eles que jurei, com lágrimas nos olhos, mantê-los sob meus cuidados e tratá-los como os filhos biológicos que eu jamais desejei algum dia ter. De fato, por sua insistência em reavê-los, cheguei a pensar que também ele, o bom e velho Carroba, nutria algo de especial pelos tais livros. Por via das dúvidas, cedendo às sentimentalidades do momento, optei por não atender mais o telefone. Assim flutuavam meus pensamentos até que ouvi o elevador estancando no meu andar e, de pronto, o soar de duas inconvenientes batidinhas na porta. “Filho-de-uma-puta”, foi a sentença final prolatada enquanto girava a chave e escondia os livros debaixo do sofá. Com um abraço efusivo e um sorriso quase contagiante, o Carroba adentrou minha humilde propriedade como um vampiro que acaba de ser convidado para uma taça de vinho.

Como de costume, apertamos unzinho e mandamos brasa. Tudo ia bem enquanto fumávamos até que, num dado momento, nitidamente sob o efeito relaxante do baseado, o Carroba entra naquela espécie de transe vegetativo, de um automatismo típico daqueles que já embarcaram, há muito, na complexidade solitária de sua própria viagem. Era sempre assim: o Carroba ficava absolutamente mudo, sentado no sofá, com o olhar fixo em alguma coisa além do horizonte, e eu lá, na merda, tentando desesperadamente articular assuntos e mais assuntos para evitar o constrangimento do silêncio. Apertei outro, como geralmente faço nessas situações, e ainda consegui sacar mais uns três ou quatro temas inéditos.

Quando já estava muito puto com tudo aquilo o telefone tocou. O aparelho não tinha fio e estava do meu lado, mas, como antevisse a luz no fim do túnel, levantei e fui atender a ligação no quarto antes mesmo de saber quem era. E não era ninguém – a ligação caiu. Contudo, senti que aquela talvez fosse minha única chance de escapar e imediatamente me lembrei da “manobra de fuga nº 04”. O risco era imenso, mas contraí os lábios num sorriso discreto e, de pronto, simulei uma conversa com meu interlocutor fictício.“Puta merda, não acredito nisso”, lembro de ter falado em tom mais alto e grave. Balbuciei ainda um ou dois palavrões e, desligando o telefone, fui até a sala comunicar ao Carroba meu súbito infortúnio – diga-se de passagem, ainda em fase de construção mental. Com a cara mais lavada do mundo falei que precisava ir com urgência ao banco “resolver uma merda que eles tinham feito”.

Me mostrando altamente consternado, conduzi aquela perfídia teatral com uma atuação impecável. Então, como estivesse sem graça, pedi licença para tomar um rápido banho e trocar de roupa, para, em seguida, assumir contrariado o ônus de minhas responsabilidades. Nitidamente desapontado, o Carroba apenas anuiu com a cabeça e desceu junto comigo ao som dos impropérios que emitia, naturalmente, em face daquela odiosa situação. “Malditos bancos”, foi a frase que repeti três vezes no elevador, perdendo apenas para “filhos-da-puta”, com quatro citações e, naturalmente “beleza, ele esqueceu os livros”, com aproximadamente 9 aparições mentais.

Já na porta do meu prédio, me despedi do cara, andei na direção oposta a dele, acendi um cigarro e, feliz com o sucesso da “manobra de fuga nº 04”, dei uma rápida volta no quarteirão, retornando pra casa antes mesmo que o último trago tivesse sua hora. Felizmente ninguém saíra ferido ou magoado com o lamentável episódio, cujo desfecho se deu de maneira quase tão perfeita quanto daquela outra vez em que tive de alugar um smoking para simular um... ah, foda-se. Isso é tudo besteira. Pra mim o que importa mesmo é a felicidade dos meus amigos.


* Interessado em saber como o diário secreto de T. Botelho Pinto foi encontrado?
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quinta-feira, maio 03, 2007

Contos de Quinta...

Crônicas de sonho e realidade
para alguém
incomum como o comum



Quando era apenas um garoto de calças curtas nunca sonhara em ser astronauta. Sonhava, entretanto, em possuir mentes...

Diferente do que se sonha, porém, a noção de realidade que partilhamos e damos como fato consumado traduz-se, como tudo, numa obra transcrita por simples cinco sentidos. São eles o tato, olfato, paladar, visão e audição. Isso é tudo e é muito pouco. O homem como medida de todas as coisas também é muito pouco. Mas o que entendemos das coisas e suas medidas para além do que podemos, como homens que somos, mensurar a partir do que se vê, ouve, toca, cheira ou prova? E como homens que gostaríamos de ser, tal qual num sonho, construímos um deus à nossa imagem e semelhança, à imagem e semelhança de nossos cinco sentidos hipertrofiados. Tornamos divina a capacidade de tudo ver, ouvir, tocar, cheirar e provar. Sonhamos com um além para aquém do que verdadeiramente somos e sentimos, como fosse o que se é ou sente apenas uma sombra do que se vê, ouve, toca, cheira ou prova.

Por isso nem sempre nossos cinco sentidos dão conta daquilo que sabemos. Devem ser flexionados ao limite para, sob a práxis de uma licença poética pura, levar adiante a crença no real. Caso não fosse assim, o que diríamos a respeito do corpo humano, por exemplo? Ele é finito, por certo. Será mesmo? Imagine então que o núcleo de uma célula já foi considerado pela ciência a menor partícula de um organismo. Até certo momento, era a única partícula que podia ser vista e, logo, a única que existia. Dividiu-se em átomos e era incrível. Depois em nêutrons, prótons e elétrons, e já se sabia o fim. Atualmente a nanodimensão já é uma realidade e o corpo humano, objeto finito, uma vez mais se decompõem na esfera do imperceptível. E isso me leva a crer que também ele, o corpo humano, pode ser um pequeno universo infinito. Invisível, inaudível, intangível, inodoro, insosso. Mas existente e real. Como um sonho.

Um famoso homem de letras disse, certa vez, que “existem mais mistérios entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia pode supor”. Um anônimo, como que completando seus pensamentos, sentenciou: “não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”. O famoso e o anônimo, cada qual a seu modo, cada qual para seu público, dividiram a mesma virtude, isto é, o reconhecimento de que nada é o que parece, e a realidade, tal qual imaginamos, não é mais que uma pretensiosa, ainda que limitada, tentativa de explicar o inexplicável. Enquanto a realidade é uma fantasia desenvolvida a partir do que vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos e provamos, a loucura define o que lhes escapa. O louco é, por natureza, um fugitivo das certezas. Seria, contudo, um fugitivo do real?

Creio que os homens sãos jamais poderiam assim se considerar caso, num dado momento da vida, não se questionaram loucos. Pois é louco todo aquele que é único e se crê aquém por estar além. Na razão de sua vida, a falta de razão do mundo. No céu dos pássaros, um firmamento para seus passos. Quantos sãos não sonham a loucura de sê-lo? E, sendo o que são, para quais realidades se projetam, se entregam, estes homens sãos e salvos da fantasia?

Os vôos do homem são possíveis. Seu destino, entretanto, é o intraduzível. Os vôos dessa ave inquieta, que desafiam necessariamente nossos cinco sentidos pregados ao chão, não hão de lançá-lo longe. Ao contrário do que se pensa, levam-no tão perto do mistério que, na tentativa desesperada de organizá-lo, no recorrente auxílio ao quíntuplo sensorial, de tão perto perde a noção do todo e, de todo, perde a noção de tudo. Mas continua a tentar. Continua a tentar decifrar. E continua a tentar decifrar com uma peça única de quebra-cabeça. E continua, para todo o sempre, com aquela única peça na mão, sabendo, porém, que detém uma prova.

E o que ela prova, única e exclusivamente, é que não há jeito de decifrá-la. Não há como descrevê-la. Não há como tocá-la. Não há como traduzi-la. Mas há, certamente, como senti-la. Há, por suposto, que mergulhar. Há, sempre há que absorvê-la. E isso basta. Não ter certeza. Aguardar a próxima vez. Sempre e sempre, com a única peça na mão. A prova absoluta da incerteza e da grandiosidade de se saber pequeno, da possibilidade de sonhar, levantar vôo e pisar no firmamento.

Quando eu era apenas um garoto de calças curtas, nunca sonhei em ser astronauta. Sonhava, entretanto, em possuir mentes...

Quem há de dizer então o que é realidade? Seria aquela fantasia apegada e limitada pelos cinco sentidos? Ou aquela que os transcende? Pelo sonho se infere o real, ou, ao contrário, é do real que se alimenta o sonhador? Que possuem em comum, afinal, o homem dos sonhos e o homem que sonha? Tudo que sei a respeito disso é que nunca possuí mente alguma que não a minha própria. E ela possui seu mistério, que me possui e me leva a querer possuí-lo. No final, só tenho uma peça invisível, inaudível, intangível, inodora e insossa.

Se a realidade é o chão em que piso e corro, meu destino invariavelmente é me ver detido ante o choque da queda. Mas se a realidade é o que vejo do alto de meu vôo, então, também cairei. Porém, ao contrário da interrupção abrupta do tombo veloz, a queda que precede o vôo também se vê precedida da tentativa inata de planar, e assim contemplar, na confusão do desespero, os últimos momentos do salto.

Os astronautas não caem. Levitam perpetuamente ao sabor do espaço e de sua gravidade anulada. Não voltam. Não contam. Não entendem. Eu, eu nunca quis ser astronauta. Queria mesmo possuir mentes...

A vida, entendo, é uma fantasia sedimentada na fábula da certeza. E se assim se faz, há que se tornar mais bela, ainda que isso importe em ignorá-la. Há que se tornar mais vida, ainda que isso importe em sonhá-la. Há que se tornar mais real, ainda que isso importe em fantasiá-la. Há de ser mais, ainda que isso importe em menos. Afinal, os deuses não eram astronautas...

Eu nunca quis ser astronauta, mas sempre sonhei ser Deus. E sonho tão impetuosamente que chego a acreditar ser eu o sonho de outrem. Esse, que me sonha, produz, ao me sonhar, seu eu fantasioso. Da mesma forma, eu que sou bem menos do que sonho ser, sonho com esse eu melhor. E esse eu melhor também sonha com outro, que sonha com outro, e assim, por meio de sonhos sucessivos e infinitos de um mesmo “eu”, sonhado cada vez mais alto, eis que, em derradeira realidade, então, me torno Deus. E quando por mim alcanço o todo, e só por mim sinto que ele existe, eu sonho, na minha realidade, a fantasia de ser pequeno. E misturado aos outros pequenos, guardo junto ao peito o segredo desse sonho, que sonho em cinco sentidos, com pés fincados ao chão, só para evitar que a vida se passe de forma invisível, inaudível, intangível, inodora e insossa.

quinta-feira, abril 26, 2007

Contos de Quinta... Light!


Pontos de Vista


Lá estava ele, o pai, folheando displicentemente as páginas do jornal de segunda-feira quando se deparou com uma daquelas notícias estarrecedoras. Por mais corriqueira que fosse, não se conteve e foi invadido por uma onda de fúria que, em seguida, transformou-se na apatia melancólica da desilusão.

Sabia que reportagens como aquela eram comuns e que, infelizmente, vez por outra depararia-se com seu triste conteúdo novamente. Contudo, ao percorrer as letras da tragédia, não conseguia imaginar como tantos jovens podiam fechar os olhos para o perigo de uma vida entregue a fortes emoções e sob o risco permanente de um abrupto interrompimento...

Pela janela de seu quarto observava o pequeno filho brincando com um velocípede e foi incapaz de evitar todo o angustiante sentimento de impotência que lhe gelou o corpo. Desejava fortemente que sua privilegiada condição financeira pudesse livrá-lo desse mal, mas sabia bem que, muitas vezes, nessas circunstâncias o perigo era ainda maior.

Pensou consigo mesmo e concluiu que, ao menos de sua parte, nunca houve interesse. Mesmo seus amigos, muito embora fascinados, jamais mergulharam fundo, talvez pela falta de acesso, talvez pelo medo de perderem suas vidas em uma aposta mal feita. Sabia que existiam diferentes modalidades e que estas, em variados graus, ofereciam um maior ou menor perigo. Todas, no entanto, eram capazes de conduzir ao fim.

“O jornal de segunda é foda”, disse logo que resolveu se afastar de todos aqueles pensamentos deprimentes. Imediatamente acendeu um baseado para relaxar e, depois de alguns tragos, voltou a observar seu garoto pela janela.

Sentiu-se feliz e jurou a si mesmo nunca mais dar tanta atenção aos acidentes ocorridos na Fórmula 1.

quinta-feira, abril 19, 2007

Contos de Quinta...



Para Diana

Decidido a socorrer a si mesmo, e vendo sucumbirem à melancolia aquele corpo e aquela mente de muito ainda juvenis, o homem enclausurado resolve escrever-se uma carta, e dar-se uma chance de prover, com um acalanto anestesiante, seu eu presente – a saber, o de um jovem mutante a meio passo de uma nova fase em sua vida, sem saber do meio passo já dado. Não era fácil, entretanto, a tarefa de anunciar-se, ou melhor, a imposição de elucidar-se perante o confuso rapaz. Sua própria vitalidade futura estava em jogo, e tudo aquilo que viria a ser dependia, de muitas e complexas formas, daquela passagem determinante para sua libertação.

O homem enclausurado não atribuía à sua condição uma noção de confinamento propriamente dita. Esta sensação era recente, e chegara por substituição ao que outrora poderia caracterizar como um salutar estado de acúmulo, orientado para uma expectativa futura de rompimento. Pelo contrário, quando ainda se encontrava nesse momento de lúdica incipiência, era capaz de experimentar todo o sabor da liberdade e deliciar-se com a impetuosidade daquele que representava, paralelamente, seu presente e passado, bem como a base de seu futuro. Porém, sem saber ao certo como nem quando, o homem enclausurado passou a sentir-se precisamente dessa maneira, preso, asfixiado, impelido ao nascimento que faria renascer, ao meio dia de sua existência, a unidade que buscava junto ao ser com o qual dividia os impulsos de seus atos.

Contudo, esse estado de coisas não era de conhecimento exclusivo do homem enclausurado. Também o jovem havia adquirido consciência daquela inexorável transição, da inquietação do homem que guardava dentro de si e que, um dia, havia desejado com todo ardor da ingenuidade viesse logo à tona. Mas o jovem, constatado o momento, sofria e, com isso, também fazia sofrer o homem enclausurado. Este, no seu íntimo, naquele lócus inconfessável de sentimentos confusos e contraditórios, justamente ali, onde não existia verdade ou mentira, apenas desejo, ele haveria por endossar, para todo o sempre, caso pudesse, o jovem que agora temia por seu desvanecimento.

E foi assim que, na transição da noite para o dia, quando enfim o rapaz descansava o corpo e a mente de mais um dentre tantos outros momentos intensos e excessivos de sua vida, ele decidiu escrever, com muito cuidado e candura a carta que, assim acreditava, faria aplacar suas inseguranças quanto a si mesmo. Após uma curta reflexão, debruçou-se o homem sobre a pequena mesa à sua frente para, logo em seguida, deter-se ao movimento, refletindo um pouco mais, e molhando a pena novamente, retomou a coreografia de seus braços, e como houvesse pensado minuciosamente sobre o conteúdo de sua mensagem, de uma só vez ele escreveu:

"Meu querido rapaz,

Saibas que minha chegada é inevitável, quem sabe mesmo chegada a hora, e que meu direito inalienável, sob esta condição, é de fazer-me pleno e dirigir, com novo fôlego e gosto, os rumos de nossa insondável existência. Entretanto, não te escrevo com o fito de cobrar e exigir, te escrevo como amigo, companheiro, como o único dentre todos nessa vida com quem que tu podes contar até o final, mesmo que ao final estejas sozinho em teu caminho.

Compreendo que, se não é fácil, para mim, assumir, que dirá a ti, deixar-te. De fato, é impossível prometer uma transição absolutamente isenta de sofrimentos e asperezas, pois com a tua partida também partir-se-ão, numa infinidade de cacos multicoloridos, todo um conjunto de frágeis certezas. No entanto, ao longo de minha jornada, prometo que procurarei juntar, da melhor maneira que for capaz, alguns desses fragmentos e, não sendo possível restituí-los em sua originalidade, tentarei ao menos recriá-los, sob a forma de novas ilusões.

Devo advertir somente que não estarás só em tua partida. Contigo também irão boa parte dos teus sonhos, amigos, desejos e dramas; e habitarão todos eles o espaço que hoje ocupo. Então seremos homem, e tu o confinado. Não te entristeças. De certo modo desfrutarás de condições bem melhores do que as que hoje me são impostas, de pura solidão e incerteza. E quando então no comando, reservadas a mim toda a sorte de rudezas, estarás tu romantizado, perseguido pelo arrependimento nostálgico nascido da incapacidade de compreender, ao tempo vivo dos acontecimentos, que aqueles eram os momentos eternos dos quais ficariam a lembrança e saudade de um todo e sempre, do qual nunca farão parte as ninharias à que eu, quando assim o for e comandar, me verei restrito, na realidade do pequeno alcance das minhas mãos. Desfruta do teu tesouro enquanto podes.

Assisto o teu choque com mais dor que impaciência, meu rapaz. Suspiro o suspiro que é só teu, por ser meu o destino e responsabilidade que lhe ensejam. Saibas que é meu cada passo que tens dado, e é minha cada gota de insegurança que te invade, a preencher o vácuo deixado por tuas tolas convicções. Fui eu quem soprou nos teus ouvidos a triste verdade que te assola agora, a de que na vida não há predestinado outro senão o de nascer para morrer; e é minha a revelação de que o dia que tanto esperavas, quando então triunfante cruzarias a linha de chegada imaginária do teu sucesso incondicional, simplesmente, não existe, persistindo em seu lugar apenas uma monótona andança sem fim e sem sentido; fui eu quem te acordou do sonho que sonhavas para ti, e sem pudor demonstrou o quanto havias te idealizado, e o quanto isso haveria de te cobrar no momento de minha chegada. E cada chaga aberta é meu destino e minha aventura, e cada lágrima que derramas é, simultaneamente, uma sentença que devo cumprir e um desafio que me proponho superar.

No entanto, antes que estas palavras venham a contradizer a essência de minhas intenções, dobrando assim um espírito para o qual se faz o império momentâneo da plena força, trago-te o consolo de minha temporada, quando hás de colher novos frutos, de sabor e consistência ainda inéditos para o modesto paladar de tua inexperiência. Guarda apenas que os aproveitará colhidos sejam à época correta.

Meu jovem rapaz é chegada a hora, e quando receberes esta carta terás contigo o aval que subscreve tua partida. Deixa o mundo que pavimentaste com teus sonhos, deixa o mundo que sonhaste pavimentar. Esse caminho, sigo eu agora, com a simples herança do teu vigor.

Dorme em paz".

* * *

Com o ponto final da carta extraiu o homem enclausurado certa paz para si mesmo. E descansou, e dormiu, e sonhou. E em seu sonho o homem enclausurado encontrava-se finalmente livre, a empreender um vôo sobre um conhecido território que lhe descrevia, com suas linhas e curvas sinuosas, a trajetória de sua própria vida. Do alto, a planar num movimento horizontal, pôde vislumbrar as paisagens de sua existência e os cenários nos quais atuou com sucesso e com fracasso, ao som das vaias e dos aplausos, por vezes, sob o silêncio da indiferença. E assim, quando findo seu insólito percurso, encontrou o dito homem aquele jovem rapaz que lhe precedera, na clareira onde escolhera pousar, a repousar com toda sua graça juvenil. Este, tomando-lhe as mãos com um sorriso, arrematou-o para um novo vôo, onde juntos, tanto o jovem quanto o maduro, alcançaram sua tão desejada plenitude, no paradoxo daquilo que se entendia por velhice.

Em seu passeio derradeiro, seguros o jovem e o maduro pelas enrugadas mãos do velho, seguiram, qual fossem uma tríade sagrada, ao clímax de sua autocompreensão. Nesse momento triunfal, quando então se faziam sonoras as últimas badaladas de uma existência repleta de gratas surpresas, aquele ser incompleto, a sentir-se uno, único e pleno pela primeira vez em sua vida, compreenderia que todo seu incansável vôo, todo seu desgastante percurso, estava voltado para uma única missão, a cumprir-se com simplicidade no irrefutável toque da finitude.