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segunda-feira, setembro 17, 2007

Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê # 12

Sei Lá Mais o Quê indicado: Sacha Baron Cohen

Dizem por aí que piada explicada não presta. Entretanto, quando o assunto é humor, podemos afirmar sem medo que existe uma tensão inerente ao ato de achar graça. Isto ocorre porque os estratagemas utilizados para se fazer piada de algo ou alguém exigem, impreterivelmente, um interlocutor digno de compreendê-los e, assim, oferecer o feedback necessário para a consumação da pilhéria. Acontece que nem sempre humorista e receptor se encontram em sintonia, prejudicando não só a piada como, sobretudo, aquele que a conta - como parece ser o caso do humorista inglês Sacha Baron Cohen, protagonista do filme Borat e do programa Da Ali G Show (canal Sony, terças-feiras, 22:30).

De fato, à primeira vista, o tipo de humor utilizado pelo comediante parece não ultrapassar a seara do besteirol politicamente incorreto. Contudo, ao observador mais atento, Sacha Baron revela em suas esquetes um humor perspicaz e inteligente que se aproveita da credulidade e preconceitos alheios. O personagem Borat, por exemplo, só é viável graças a visão extremamente distorcida que possuem ingleses e americanos sobre "povos distantes e exóticos", como o Cazaquistão - terra natal do personagem. Aproveitando-se dos estigmas e da visão torpe ocidental sobre o oriente, Sacha Baron é capaz de extrair o lado mais negro de cada um sem que sequer percebam. É no ápice desse constrangimento que encontramos uma das formas de humor mais criativas e inteligentes dos últimos tempos e, muito embora existam pessoas capazes de associá-lo à estupidez gratuita da série Jackass, sem dúvidas veio para ficar.

Se alguém ainda duvida da capacidade do cara parabéns, pois tem muita gente boa que acredita - e por isso é alvo de seu humor - em histórias como essa logo abaixo, a saber, a biografia fictícia do "segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão":


BIOGRAFIA:

Filho de
Asimbala Sagdiyev e Boltok, o Estuprador — de quem também é neto —, nasceu em 30 de julho de 1972 na vila fictícia de Kuzcek, no Cazaquistão. Se diverte jogando pingue-pongue, dançando música Disco e fotografando mulheres enquanto elas vão ao banheiro. Viúvo, comemora a morte da primeira esposa Oxanna — violentada e comida por um urso — e já comprou uma nova mulher, que, apesar de cozinhar bem e puxar firme a carroça, três anos mais tarde — ao completar 15 anos — começou a ficar com a voz grossa, ganhar pêlos pelo corpo e ficar com a vagina mais larga do que um saco vazio. Mais tarde se casou de novo, arranjou uma patroa, uma namorada e uma profissional que vale cada centavo.

Tem um filho de 13 chamado
Hooeylewis e dois gêmeos de 12, Biram e Bilak, sendo também avô de dezessete crianças — algumas ele planeja vender para a popstar Madonna. Na sua família ainda estão a irmã mais velha Natalya — a quarta melhor prostituta do país (sexta depois da turnê das Pussycat Dolls) — e o caçula Bilo — retardado com a cabeça em forma de espiga e mais de duzentos dentes. Em sua viagem aos Eu e A, em busca de um romance com Pamela Anderson, conheceu Luenell, com a qual uniu laços, nas ruas.

Respeitado apresentador de telejornal na sua pátria natal, é membro do quadro de honra da Universidade de Astana, onde se formou com louvor não só em jornalismo mas em inglês e no estudo da Praga. Prestou durante longos anos serviços ao governo criando cinco novas pragas que devastaram cinco milhões de cabras no Uzbequistão, sem contar a época em que fez gelo, foi guardador de sêmen de animais, caçador de ciganos e removedor de pássaros mortos em um computador.

Pagão até fazer amizade com os pentecostais e converter toda a sua vila ao cristianismo, admira a visão política de Joseph Stalin por causa do forte e poderoso pênis do ex-ditador russo e apóia o presidente Bush na sua guerra de terror.

fonte da biografia: Wikipedia.

terça-feira, julho 10, 2007

Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê # 11

Disco Indicado: PINO SOLTO, VOLUME 01

Amigos do FQL, hoje nossa famosa série cultural traz até vocês um pouquinho do que há de melhor no universo musical underground nacional: o disco Pino Solto Vol. 1. Por razões absolutamente compreensíveis, muita gente torce o nariz para o cenário alternativo da música brasileira, repleto de jovens sonhadores e de canções ruins. Felizmente, no caso desta banda carioca de nome pitoresco e eloqüente, a qualidade é uma aposta certa e envolvente.

Formado por David Aguiar (vocal/letras), Leonardo Villas-Boas (guitarra/produção) e Tiago Coutinho (bases/programação eletrônica), o grupo desenvolve em torno de um projeto musical coerente e descontraído uma nova estética de pensamento e um hibridismo sonoro que vão muito além dos padrões atuais encontrados no repetitivo mercado fonográfico de hoje. Raps, canções de ninar, sambas e rocks permeiam a atmosfera do disco que, por sua vez, brilha ainda mais nas composições sagazes e divertidíssimas de David.

Vale muito a pena conferir o álbum e, só para se ter uma idéia, baixar músicas com títulos impagáveis como Joãozinho e Maria; Lili Cara Pintada; Maconhecida Minha; Uzomi; O Olho que Tudo Vê; Rato de Orelhas Redondas; Romântica; Mabeck e Bandido Moderno, cuja letra reproduzo aqui e agora:

BANDIDO MODERNO

Bandido moderno usa terno
usa caneta como faca
tem canal no Inferno
só tem amigo artista,
empresário, deputado
e outros vigarista.

Bandido moderno anda na moda
Bebe wisky 12 anos
pede gim com soda
conhecedor de vinho
sapatinho de couro
e o colarinho de linho.

Tem gosto americano
bandido moderno só anda no pano
domina a norma culta
da língua portuguesa
e da língua das puta.

Devoto religioso
com sua fé acredita
que não é criminoso
bandido coletivo
rouba o povo
se esconde
e continua vivo.

E o ciclo é certo
não é preciso chegar perto
pra ver bandido moderno
metendo a mão no povo
e guardando no terno.


Para ouvir e baixar gratuitamente todas as músicas do Projeto Pino Solto, além de conhecer um pouco mais sobre a história da banda e seus componentes, é só visitar o site da Trama Virtual clicando AQUI. Para assistir os vídeos no Youtube e participar da comunidade Pino Solto no Orkut, é só clicar nos links oferecidos no lado direito de nossa página virtual.

segunda-feira, maio 14, 2007

Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê # 10


Livro indicado: As Aventuras de Alice no País das Maravilhas

Ele adorava criancinhas e misturava, na vida e na arte, os universos paralelos do mundo adulto e infantil. Foi assim que o diácono, matemático e fotógrafo amador Charles Lutwidge Dogson - mais conhecido pelo pseudônimo Lewis Carroll - produziu duas de suas obras literárias mais conhecidas: "As Aventuras de Alice no País das Maravilhas", publicado em 1865 e "Através do Espelho e o que Alice Encontrou Lá", de 1871. A trilogia do nonsense de Carroll só se completa, contudo, em 1876, quando publica o poema "The Hunting of the Snark" - menos conhecido que os anteriores, porém tão importante quanto.

Assim, estes dois livros e o poema formam uma obra só e sua leitura não-ingênua revela uma estrutura narrativa repleta de paralelismos e sofisticados jogos semânticos. Em todos os textos Carroll se utiliza de um sistema auto-referencial baseado em jogos de duplo-sentido, alusões paródicas e, sobretudo, na utilização do portmanteaux - "palavras-valise", em que duas formam uma terceira, como, por exemplo, a palavra "snark", mistura de snake (cobra) e shark (tubarão).

Obviamente não sou um especialista na obra de Carroll e extraí estas informações da excelente edição da Summus Editorial (tradução e organização de Sebastião Uchoa Leite) - a minha é de 1980 (São Paulo, 3ª edição). O diferencial desta publicação consiste justamente na sua proposta mais ousada e, por sinal, mais completa, que traz consigo não só os textos que citei acima como outros igualmente interessantes - tais quais os jogos linguísticois dos Doublets -, além de fotos suas e das meninas entre oito e doze anos de idade que o rodeavam na Christ Church, incluindo aí a jovem Alice. A edição vem ainda com dois excelentes capítulos de crítica literária sobre a produção de Lewis Carroll , que apresenta e faz justiça à magnitude simbólica contida em seus textos.

Sobre o emprego do portmanteaux por Carroll, talvez um de seus melhores exemplos seja o poema Jabberwocky, quase que inteiramente estruturado dessa forma. Vale a pena dar uma olhada no orginal em inglês e ler a primorosa tradução de Augusto de Campos, que deu vida ao Jaguadarte na língua portuguesa. Confira ambas...

Jabberwocky


Twas brillig, and the slithy toves

Did gyre and gimble in the wabe;

All mimsy were the borogoves,

And the mome raths outgrabe.

'Beware the Jabberwock, my son!

The jaws that bite, the claws that catch!

Beware the Jujub bird, and shun

The frumious Bandersnatch!'

He took his vorpal sword in hand:

Long time the manxome foe he sought —

So rested he by the Tumtum tree,

And stood awhile in thought.

And as in uffish thought he stood,

The Jabberwock, with eyes of flame,

Came whiffling through the tulgey wood,

And burbled as it came!

One, two! One, two! And through and through

The vorpal blade went snicker-snack!

He left it dead, and with its head

Hewent galumphing back.

'And has thou slain the Jabberwock?

Come to my arms, my beamish boy!

O frabjous day! Calloh! Callay!

He chortled in his joy.'

Twas brillig, and the slithy toves

Did gyre and gimble in the wabe;

All mimsy were the borogoves,

And the mome raths outgrabe.


Jaguadarte

(Augusto de Campos)


Era briluz. As lesmolisas touvas

Roldavam e relviam nos gramilvos

Estavam mimsicais as pintalouvas

E os momirratos davam grilvos.

"Foge do Jaguadarte, o que não morre!

Garra que agarra, bocarra que urra!

Foge da ave Felfel, meu filho, e corre

Do frumioso Babassurra!

"Ele arrancou sua espada vorpal

E foi atrás do inimigo do Homundo.

Na árvore Tamtam ele afinal

Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,

Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,

Sorrelfiflando através da floresta,

E borbulia um riso louco!

Um, dois! Um, dois! Sua espada mavorta

Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!

Cabeça fere, corta, e, fera morta,

Ei-lo que volta galunfante.

"Pois então tu mataste o Jaguadarte!

Vem aos meus braços, homenino meu!

Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!"

Ele se ria jubileu.

Era briluz. As lesmolisas touvas

Roldavam e relviam nos gramilvos.

Estavam mimsicais as pintalouvas

E os momirratos davam grilvos.

segunda-feira, abril 02, 2007

Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê # 09


Sei Lá Mais o Quê indicado: Os Mestres Loucos
Este impressionante documentário de apenas 30 minutos dirigido pelo antropólogo francês Jean Rouche é, incontestavelmente, um dos trabalhos etnográficos mais chocantes e sedutores já produzidos no século XX. Isto porquê o vídeo Les Maîtres Fous, filmado inteiramente em uma única e insólita tarde de 1955 em Accra, capital de Gana, retrata com riqueza e profundidade o tema da resistência cultural, realizada, no caso em questão, por meio da reapropriação nativa dos signos de dominação ostentados pelos povos colonizadores presentes na Costa do Ouro africana.

É neste centro urbano e comercial sob a égide do domínio britânico, cuja economia em pleno desenvolvimento atrai populações de todo o continente, que se desenrola a cerimônia dos Haouka, novos deuses apartados da tradição cultural africana que representam, no seu culto religioso, os poderes da técnica e da modernidade oriundos da estrutura social inglesa que por lá se impôs. Assim é que o "maquinista", o "piloto de caminhão", os "sentinelas" (que guardam o lugar sagrado com falsos rifles de madeira), o "general", o "tenente" e o "comandante" constituem entidades que se referem às transformações da milenar economia de subsistência africana em parte integrante da divisão internacional do trabalho como colônias ricas em mão-de-obra barata e em recursos naturais.

Jean Rouch estabelece o corte magistral que contrapõe o ritual dos Haouka ao da parada militar britânica no qual aquele se baseia, tornando clara a estratégia de desconstruir o modelo colonial de organização política da sociedade africana. O filme possui cenas fortes que vão da possessão dos praticantes ao sacrifício de um cachorro, e não deve ser visto por olhos demasiadamente ocidentalizados. Ficamos, agora, com um trecho da narrativa que acompanha as cenas deste incrível documentário:

"Os praticantes do culto Hauka, trabalhadores nigerienses reunidos em Accra, se reúnem à ocasião de sua grande cerimônia anual. Na ‘concessão’ (…) do grande padre Mountbyéba, após uma confissão pública, começa o rito da possessão. Saliva, tremedeiras, respiração ofegante…são os signos da chegada dos ‘espíritos da força’, personificações emblemáticas da dominação colonial : o cabo da polícia, o governador, o doutor, a mulher do capitão, o general, o condutor da locomotiva".

terça-feira, março 06, 2007

Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê # 08

Disco indicado: The Very Best of Julie London

Por certo que não faltam mulheres aptas a ocupar, nessa Semana Especial Feminina, este espaço da coluna Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê. Contudo, poucas são aquelas que conseguem reunir, a um só tempo, tantos e tão prodigiosos predicados típicos das grandes almas femininas como fez Julie London: sua beleza estonteante, sua voz sexy e cool, sua ousadia e independência fizeram dessa mulher à frente do seu tempo um verdadeiro ícone da década de 50. Nascida em Santa Rosa, Califórnia, Julie Peck (mais tarde Julie London)iniciou a sua carreira artística numa orquestra de Los Angeles, mas logo foi convidada para ser atriz em Hollywood, onde fez grande sucesso contracenando com Gary Cooper.

Ela, entretanto, abandonou sua carreira de atriz para cuidar de seus filhos, voltando ao showbiz como cantora em 1955, com o disco Julie Is Her Name - onde era acompanhada pela talentosíssima guitarra de Barney Kessel. Gravou, ao todo, 32 álbuns cujas versões apresentadas - tais como Cry Me a River, Black Coffee, Desafinado, Light My Fire e Sway - ainda hoje são exemplos de criatividade e originalidade musical. Sempre acompanhada pela nata do jazz americano, Julie foi uma das artistas mais populares de sua época, sendo considerada a melhor cantora americana durante três anos seguidos pela revista Billboard.

Julie London fez, ao longo de sua carreira, diversos shows de sucesso, dentre os quais se inclui uma visita ao Brasil, em 1962, quando apresentou-se no Golden Room do Copacabana Palace.Este exemplo da grandiosidade feminina, que alia um visual de pin-up com uma ousadia de amazona morreu em 1995, aos 74 anos de idade. Recentemente a gravadora EMI lançou um CD duplo com o nome de The Very Best of Julie London, com 14 musicas cada, que reúnem alguns dos seus maiores sucessos. A despeito do encarte pobrinho da edição brasileira, vale a pena conferir o álbum, ainda que, no fim das contas, toda sua discografia possa ser baixada da internet sem custos adicionais.

Para ouvir e babar com as músicas de Julie London clique aqui.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê # 07


Livro indicado: O Perfume - história de um assassino
É muito comum ouvir falar por aí que uma imagem vale por mil palavras. Contudo, algum de vocês já parou para se perguntar quantas palavras são necessárias para compor um único cheiro? Pois bem, foi essa a missão quase impossível a que se propôs, com bastante êxito, o escritor alemão Patrick Süskind, no seu primeiro romance O Perfume, publicado pela primeira vez na forma de folhetim pelo jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung e, mais tarde, já como livro, em 1985.

O livro narra a história de Jean-Baptiste Grenouille e revela, assim, a trajetória de um estranho jovem, rejeitado pela mãe, pelas amas-de-leite, pelos colegas do orfanato e demais cidadãos da fétida Paris do século XVIII. Porém, Grenouille guarda um segredo que lhe retira do imenso grupo de homens e mulheres à procura de sua própria identidade e se distingüe dos demais seres humanos por duas características muito peculiares: ao mesmo tempo em que não possui cheiro algum, sua capacidade olfativa transcende qualquer limite imaginado pelo mais engenhoso dos homens. Os caminhos que percorre nosso inusitado protagonista levam-nos ao epicentro das paixões humanas e, ainda que deste conteúdo sirvam-se variadas obras da literatura universal, é impressionante a capacidade do autor em traduzir, sob a restrita forma das palavras, toda uma rede sensorial baseada no olfato, que leva seu leitor a uma experiência literária singular e salutar. Confiram o trecho abaixo:

"Na época de que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível por nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha; sem ventilação, salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnados do odor azedo dos penicos. Das chaminés fedia o enxofre; dos cortumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros fedia o sangue coagulado. Os homens fediam a suor e a roupas não lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos fediam a cebola e, nos corpos, quando já não eram mais bem novos, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fedia o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e a rainha como uma cabra velha, tanto no verão como no inverno. Pois à ação desagregadora das bactérias, no século XVIII, não havia ainda sido colocado nenhum limite e, assim, não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que não fosse acompanhada de fedor".
* dizem por aí que está rolando um filme baseado no livro. Deve ser uma merda...

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê # 06

Sei Lá Mais o Quê indicado: Dancem macacos, dancem

O pequeno vídeo produzido por Ernest Cline, "Dancem macacos, dancem" é, sem exageros, uma obra prima da simplicidade. Contando apenas com imagens retiradas do Google e um texto, ele consegue elaborar uma análise crítica do macaco homem e suas pretensões de não sê-lo. A trilha sonora fica a cargo da The Penguin Cafe Orchestra, que dá o tom dramático na execução de "Music for a Found Harmonium", realmente emocionante. Para conferir o vídeo, é só clicar no hyperlink acima. Deixo vocês agora com o texto que subscreve a película:


"Há bilhões de galáxias no universo observável. E cada uma delas contém centenas de bilhões de estrelas. Em uma dessas galáxias, orbitando uma dessas estrelas, há um pequeno planeta azul. E este planeta é governado por um bando de macacos. Mas esses macacos não pensam em si mesmos como macacos. Eles nem sequer pensam em si mesmos como animais. De fato, eles adoram listar todas as coisas que eles pensam separá-los dos animais: polegares opositores, autoconsciência... Eles usam palavras como Homo Erectus e Australopithecus. 'Você diz to-ma-te, eu digo to-ma-ti'. Eles são animais, certo? Eles são macacos. Macacos com tecnologia de fibra ótica digital de alta velocidade. Mas ainda assim macacos. Quero dizer, eles são espertos, você tem que conceder isso. As pirâmides, os arranha-céus, os jatos, a Grande Muralha da China. Isto tudo é muito impressionante. Para um bando de macacos. Macacos cujos cérebros evoluiram para um tamanho tão ingovernável que agora é impossível para eles ficarem felizes por muito tempo. Na verdade, eles são os únicos animais que pensam que deveriam ser felizes. Todos os outros animais podem simplesmente ser. Mas não é tão simples, para os macacos. Pois os macacos são amaldiçoados com a consciência. E assim os macacos têm medo. Os macacos se preocupam. Os macacos se preocupam com tudo. Mas acima de tudo com o que todos os outros macacos pensam. Porque os macacos querem desesperadamente se encaixar. Com os outros macacos. O que é bem difícil, porque a maior parte dos macacos se odeia. Isto é o que realmente os separa dos outros animais. Estes macacos odeiam. Eles odeiam macacos que são diferentes. Macacos de lugares diferentes. Macacos de cores diferentes. Sabe, os macacos se sentem sozinhos. Todos os seis bilhões deles. Alguns dos macacos pagam outros macacos para ouvir seus problemas. Os macacos querem respostas. Os macacos sabem que vão morrer, então os macacos fazem deuses. E os adoram. Então os macacos começam a discutir quem fez o deus melhor. E os macacos ficam irritados, e é quando geralmente os macacos decidem que é uma boa hora de começar a matar uns aos outros. Então os macacos fazem guerra. Os macacos fazem bombas de hidrogênio. Os macacos têm o planeta inteiro preparado para explodir. Os macacos não sabem o que fazer. Alguns dos macacos tocam para uma multidão vendida de outros macacos. Os macacos fazem troféus e então eles os dão para si mesmos. Como se isto significasse algo. Alguns dos macacos acham que sabem de tudo. Alguns dos macacos lêem Nietzsche. Os macacos discutem Nietzsche. Sem dar qualquer consideração ao fato de que Nietzsche, era só outro macaco. Os macacos fazem planos. Os macacos se apaixonam. Os macacos fazem sexo. E então fazem mais macacos. Os macacos fazem música. E então os macacos dançam. Dancem, macacos, dancem! Os macacos fazem muito barulho. Os macacos têm tanto potencial, se eles pelo menos se dedicassem... Os macacos raspam o pêlo de seus corpos numa ofensiva negação de sua verdadeira natureza de macaco. Os macacos constroem gigantes colméias de macacos que eles chamam de 'cidades'. Os macacos desenham um monte de linhas imaginárias na terra. Os macacos estão ficando sem petróleo, que alimenta sua precária civilização. Os macacos estão poluindo e saqueando seu planeta como se não houvesse amanhã. Os macacos gostam de fingir que está tudo bem. Alguns dos macacos realmente acreditam que o universo inteiro foi feito para seu benefício. Como você pode ver, esses são uns macacos atrapalhados. Estes macacos são ao mesmo tempo as mais feias e mais belas criaturas do planeta. E os macacos não querem ser macacos. Eles querem ser outra coisa. Mas não são".

sábado, janeiro 13, 2007

Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê # 05

Disco Indicado: Gilberto Gil Ao Vivo

Gravado em outubro de 1974 durante um show do cantor em São Paulo, o álbum Gilberto Gil Ao Vivo é um daqueles discos imperdíveis e ligeiramente desconhecidos com o qual temos que nos deparar algum dia. Neste álbum, onde a capacidade criativa de Gil parece transbordar em cada faixa, encontramos uma mistura de sons e ritmos variados - como rock, baião, maracatu, xote, bossa nova e samba - executados por músicos de primeira linha que garantem um resultado final impecável. Vale muito a pena ouvir o disco inteiro, mas se faltar tempo ou oportunidade, não deixe de conferir João Sabino, Abra o Olho, Menina Goiaba e Herói das Estrelas. Ah, o álbum conta ainda com 5 faixas bônus, com destaque para Copo Vazio - dedicada ao compositor Chico Buarque - e Cibernética, sambinha espetacular introduzido com uma história impagável de Gil. Até a próxima e fiquem com:
Abra o olho

Ele disse: "Abra o olho"
Caiu aquela gota de colírio
Eu vi o espelho
Ele disse: "Abra o olho"
Eu perguntei como é que andava o mundo
Ele disse: "Abra o olho"
O telefone tocou
Soando como um grilo de verdade
Eu ouvi o grilo
O grilo cantando
Tava eu no mato de novo
No mato sem cachorro
Eu pensei: "Tá direito?"
Que eu nunca tive cachorro ao meu lado
Ele disse: "Abra o olho"
Eu disse "aberto", aí vi tudo longe
Ele disse: "Perto"
Eu disse: "Está certo"
Ele disse: "Está tudinho errado"
Eu falei: "Tá direito"
Eu falei: "Tá direito"
Tudo numa gota de colírio
Ele disse: "É delírio
Navegar nas águas de um espelho"
"Meu nego, abra o olho"
Ele disse: "Abra o olho"
Ele disse: "Abra o olho"
Com aquela sua voz suave, amiga e franca
Eu falei "tá direito" de olho fechado e gritei:
"Viva Pelé do pé preto
Viva Zagallo da cabeça branca"

terça-feira, dezembro 05, 2006

Livros, discos e sei lá mais o quê # 04


Livro indicado: Entre Quatro Paredes

Retrato do pensamento filosófico de Jean Paul Sartre, o livro Entre Quatro Paredes é, na verdade, a segunda peça teatral do escritor, produzida pouco antes do fim da Segunda Guerra Mundial. Nesta obra existencialista encenada em um único ato, um homem e duas mulheres, com personalidades muito diferentes, vão para o inferno e lá descobrem sua confusa expiação: condenados a passar toda a eternidade lado a lado, na mesma sala, sem recurso outro que não suas próprias individualidades. Surpresos e, até certo ponto, aliviados em saber do inferno tão só uma sala vazia onde teriam que conviver eternamente com os companheiros, logo eles decobririam, para seu desespero, que seu padecimento implicava suportar o pior de si mesmos. E é do reflexo de suas próprias fraquezas, estampadas no olho alheio, que os personagens chegarão à célebre frase que imortalizou o livro: o inferno são os outros. A obra revela muito sobre a condição humana e possui virtudes ímpares no contexto da literatura moderna, sobretudo pela extrema sensibilidade do autor - que se mescla, em mais de uma ocasião, a uma espécie de olhar cítrico sobre o homem e suas tolas convicções a respeito de si mesmo.
Segue o trecho:

"Vão ver como é tolo. Tolo como tudo. Não existe tortura física, não é mesmo? E no entanto estamos no inferno. E ninguém mais chegará. Ninguém. Temos que ficar juntos, sozinhos, até o fim. Não é isso? Quer dizer que há alguém que faz falta aqui: o carrasco... Não serei o carrasco de ninguém. Não lhes desejo mal, e nada tenho que ver com as senhoras. Nada. É muito simples. Vejam só, cada qual no seu canto; esse é que é o jogo. A senhora aqui, a senhora ali, eu lá. E silêncio. Nem um pio. Não é difícil, não é mesmo? Cada um de nós tem muito que se incomodar consigo mesmo. Acho que eu seria capaz de passar dez mil anos sem falar."

quarta-feira, novembro 29, 2006


Livros, discos e sei lá mais o quê # 03




Sei lá mais o quê indicado: Pink Flamingos

O filme Pink Flamingos (1972), de John Waters, é uma produção cuja descrição não precisa ir muito além de seu subtítulo: um exercício de mau-gosto. Pode-se dizer que esta película inaugurou a concepção de cinema underground nos EUA e elevou o status dos midnight movies ao patamar da contestação política. O filme narra a insólita competição entre a dragqueen Divine e o casal alucinado Connie e Raymond Marble - que sequestra jovens moças para estuprá-las, engravidá-las e vender seus filhos para casais de lésbicas - na busca pelo título de "pessoa mais sórdida do mundo". Vale a pena conferir a escatologia de Pink Flamingos, mas evite fazê-lo enquanto come, pois a película é repleta de cenas capazes de subtrair qualquer apetite. Ah, devo destacar a trilha sonora do filme, muito legal mesmo, repleta de rockzinhos cults apresentados pelos The Centurions, The Trashmen, Patti Page e Little Richard. Faça você também esse exercício de mau-gosto!

sexta-feira, novembro 24, 2006

Livros, discos e sei lá mais o quê (#02)


Disco indicado: Vo Bate Pa Tu

Primeiro disco do grupo "Baiano e os Novos Caetanos", Vo Bate Pa Tu (1974) é o resultado da inusitada união da dupla Chico Anysio/Arnould Rodrigues com o grupo Novos Baianos - de Moraes, Baby, Pepeu & cia. Pra quem curte uma MPB diferente e bem humorada (coisa rara nas composições desse período), este disquinho é mais do que indicado, pois além dos excelentes arranjos executados pela turma dos Novos Baianos, cada faixa é marcada pelo humor cáustico da dupla de compositores. A música de maior sucesso, e que dá nome ao álbum, é, obviamente, "Vo bate pa tu", interpretada por alguns como um protesto dissimulado contra a ditadura - já que aborda o tema da deduração. Não concordo muito com esta perspectiva e, a julgar pelo que dizem as más línguas sobre o histórico de Chico Anysio, tenho razões para crer que existem muito mais coisas pra se bater pros outros (sobretudo pra galera dos Novos Baianos) além do comunismo subversivo...
Destaque para as faixas "Véio Zuza", "Cidadão da Mata" e "Urubu tá com Raiva do Boi", cujo conteúdo poético encerra, desde já, esta coluna:

Urubu tá com raiva do boi
E eu já sei que ele tem razão
É que o urubu tá querendo comer
Mas o boi não quer morrer
Não tem alimentação

O mosquito é engolido pelo sapo,
O sapo a cobra lhe devora.
Mas o urubu não pode devorar o boi:
Todo dia chora, todo dia chora.

Gavião quer engolir a socó,
Socó pega o peixe e dáo fora.
Mas o urubu não pode devorar o boi:
Todo dia chora, todo dia chora.

quinta-feira, novembro 23, 2006



Livros, discos e sei lá mais o quê (#01)

Meus caros amigos, "Livros, discos e sei lá mais o quê" é a mais nova seção deste blog. Nela você encontrará algumas sugestões para um bom exercício dos sentidos, sempre acompanhadas de uma pequena resenha sobre a obra literária, musical, cinematográfica ou sei lá mais o quê. Enfim, é isso.


Livro indicado: Redoble por Rancas
Publicado no Brasil sob o título Bom dia para os defuntos, o livro do escritor peruano Manuel Scorza Redoble por Rancas representa, sem dúvida alguma, uma das mais densas e prodigiosas obras da literatura latinoamericana. O livro narra a saga da revolta camponesa no Peru, em 1960, contra uma empresa mineradora norteamericana - Cerro del Pasco Corporation - que cercara não só suas terras, mas sobretudo o exercício de sua própria condição humana. Destaque especial para o primeiro capítulo, O sol do Dr. Montenegro, de uma perspicácia e sofisticação tão grandes que, passando os olhos pelas letras que o compõe, esquecemos tratar-se de uma bárbara e persistente história real. Devo acrescentar que este livro é o primeiro de cinco romances independentes, porém interligados, que compõem a "Guerra Silenciosa". Assim temos também "Garambono, o Invisível"; "O Cavaleiro Insone"; "Cantar de Agapito Robles " e a "Tumba do Relâmpago", além do indicado "Bom Dia para os Defuntos", cujo pequeno trecho abaixo encerra a coluna de hoje:

"Os arruaceiros, os namorados e os bêbados se desgrudaram das primeiras escuridões para admirá-la. 'É o sol do doutor!', sussurravam exaltados. No dia seguinte, cedo, os comerciantes da praça desgastaram-na com olhares temerosos. 'É o sol do doutor', diziam emocionados. Gravemente instruídos pelo diretor da escola - 'Espero que nenhuma imprudência leve seus pais à cadeia!' -, os escolares admiraram-na ao meio-dia: a moeda tomava sol sobre as mesmas descoloridas folhas de eucalipto. Por volta das quatro, um garotinho de oito anos se atreveu a cutucá-la com uma varinha: nessa fronteira estacou a coragem da província. Ninguém tornou a tocá-la nos doze meses seguintes".