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sábado, agosto 11, 2007


Vez por outra nosso Fundo de Quintal Literário trará até vocês algumas das melhores postagens de outros blogs, procurando, assim, superar suas próprias limitações criativas e, sobretudo, homenagear as mentes em atividade na rede. Assim, dando prosseguimento à série, um post original de:


Gigi


cenas cariocas.

[praça XV. 13h. ponto final do 268]

– er... toma aqui sua pizza.

– não quero. você sempre me deixa com fome! fui te dar um pedaço da minha pizza, você avançou nela que nem um bicho... derrubou no chão... seu bicho!

– mas aqui... comprei outra pra você! toma!

– comprou com que dinheiro que você não tem dinheiro? você nunca tem dinheiro, você não comprou merda nenhuma. essa é aquela do chão. seu bicho!

– não... eu comprei!

– essa é aquela do chão, eu que não como isso. tá pensando que eu como lavagem? quem come lavagem é a sua mãe!

– escuta aqui, agora você está passando dos limites. me dá um trago desse cigarro aí!

– não dou, não! não dou trago nenhum não que teu ônibus vai sair... senão você vai derrubar o meu cigarro, seu bicho! não tem educação não? parece que foi criado no mato... EEEEUUU fui criada no mato e tenho educação! seu bicho!

– err...

– e tua irmã, que trabalha na termas?

– ...

* Textos com visões inusitadas, escritos no bom português,
você só encontra se mergulhar

Dentro da Noite Veloz

quinta-feira, agosto 09, 2007



Chaupiscos Digressivos: a metafísica do cocô

O mundo coprofólico enfrenta, com o passar dos tempos, uma série de entraves situados para além do mau funcionamento intestinal. Não se trata, contudo, de um debate recente este que, por nós, intelectuais da escatologia, é conhecido como metafísica do cocô.

Nesse sentido, é no texto bíblico do Gênesis que encontramos, sob aura sacra, a primeira referência acerca do tema, explícito no relato sobre a criação. A passagem reveladora do texto sagrado conta sem pudores aos homens de bom coração que, no início dos tempos, “do barro (de Deus) fez-se o homem”.

Desde então, na tentativa de compreender seu lugar no mundo, a raça humana procurou respostas para sua condição universal e, no curso evolutivo de sua história singular, subverteu crenças, derrubou dogmas e instaurou, por repetidas vezes, uma nova perspectiva, diametralmente oposta à anterior, sobre a relação homem/merda.

Com o Iluminismo, e a crença no homem como centro do mundo, nasceu a corrente filosófica que pregava justamente o contrário do texto bíblico de Gênesis. Sua argumentação fundamental dizia que “se do barro fez-se o homem, do Homem também se faz o barro”. Nesses tempos de luzes os banheiros eram locais de efervescentes trocas, freqüentados por intelectuais e artistas interessados em experimentar a sensação divina do ato da merda. A estátua “O Pensador” - uma das mais famosas esculturas de bronze do escultor francês Auguste Rodin – é uma homenagem ao espírito engrandecedor desse período.

Os novos tempos modernos trouxeram consigo uma reviravolta na realidade do cocô. Do Iluminismo à Revolução Industrial, o homem passou a se sentir tão igual a Deus que resolveu renegar sua obra, no caso, a merda, e cagar para o próprio homem. Por muito tempo os operários de todo o mundo – homens, mulheres e criancinhas – foram tratados como dejeto e jogados no vaso sanitário do capitalismo para que os governos dessem descarga...

Atualmente a pós-modernidade vem suscitando questões relevantes sobre a relação cotidiana estabelecida entre o homem e a merda. Um dos estudos mais interessantes sobre o tema vem do antropólogo russo Brunov Cardovsky Osorov, que estuda o papel do papel higiênico no dia-a-dia do homem pós-moderno. O intelectual propõe uma visão dualista sobre “o ato da limpeza barro-metafísico representado pelo papel higiênico”, que consiste, segundo sua teoria, numa “escolha coordenada assindética entre dois tipos clássicos de papel: o rasga-cu e o borra-dedo” (Osorov, 2005).

Ferir o ânus ou borrar o dedo: eis a questão dos novos tempos. Entretanto o que não muda, desde que o primeiro hominídeo pisou na Terra, é que somos seres cagantes e a única coisa que nos diferencia dos outros animais é que tratamos a merda com vergonha. A despeito de fazermos as maiores cagadas do planeta.


Dr. Iohannas Beebop

PHD em Escatologia

Universidade Chicago, Boston.


quarta-feira, agosto 08, 2007



MANCHA DO PASSADO

Definitivamente ela o amava e não foi em vão que jurou estar ao seu lado na alegria e na tristeza, na saúde ou na doença. Desde que o conhecera sabia que era o homem de sua vida, fato este confirmado em cada abrir de portas, em cada casaco oferecido e, sobretudo, no companheirismo diário que fazia dele seu maior cúmplice. Mas agora, aquilo...

A mulher que julgava ter o marido perfeito, isto é, extremamente bem sucedido - um "homem de negócios", como ele mesmo dizia -, bonito, inteligente e compreensivo, descobrira uma terrível mancha em seu passado, bastante recente, por sinal. Ela, na condição de mulher e companheira, se questionava se tinha o dever de aceitar, ou melhor, de se sujeitar a um borrão, uma mácula fétida e vexatória como aquela, revelada no mais íntimo porão da vida de seu amado.

Quando o dito cujo chegou em casa, após um longo dia de trabalho, tudo o que desejava era um bom banho e um jantar pronto, mas antes teve que ouvir, por uns bons vinte minutos, a patroa reclamando e dizendo que nunca mais lavaria uma cueca dele que estivesse suja de cocô.


segunda-feira, agosto 06, 2007