Hoje o Fundo de Quintal Literário não apresenta seus Contos de Quinta, pois morreu, nesta madrugada, o poeta Bruno Tolentino - um dos maiores nomes da literatura no Brasil contemporâneo. Pouco conhecida até tempos recentes, sua obra começou a se difundir em 1994 para um círculo bem mais amplo de leitores, quando então a Companhia das Letras editou o primeiro volume de sua Obra Poética, As Horas de Katharina (São Paulo, Companhia das Letras, 1994). Diferente da maioria das antologias poéticas, o livro não consiste em uma coletânea de poemas isolados, mas é uma obra de concepção integral que retrata a escalada interior de uma freira em direção ao conhecimento de Deus. Celebrado como "um dos mais altos cumes da nossa inspiração poética" (Antônio Houaiss), As Horas de Katharina recebeu o Prêmio Jabuti 1995 e teve sua edição rapidamente esgotada. Tolentino conquistou pela segunda vez o prêmio em 2003 com o livro O Mundo como Idéia e, em 2007, foi novamente selecionado como um dos dez finalistas do Prêmio Jabuti com seu último livro A Imitação do Amanhecer, cujo trecho reproduzo logo abaixo.
(leia os Contos de Quinta aqui)
A IMITAÇÃO DO AMANHECER
II.95
O ser que escolhe o exílio e anda solto no cosmos
atrás do encanto seu comparsa, quando tem
nos intervalos osculados, nesses ósculos
de epifania, uma alegria que lhe vem
de desfolhar-se e repetir-se; ao dar-se a quem
vem contrapor-se à sucessão de instantes póstumos
o pobre inunda-se de luz. É assim que, a sós
com aquele corpo igual ao dele e ao de ninguém,
o ser confunde-se ao seu duplo. Tu compunhas,
Alexandria, aquela cena refletida,
aquele enlace da metade repetida
como as molduras dos espelhos – e os rascunhos
do ser completo, ou seja, as duas testemunhas
de um mesmo encanto, protegia-as, mas da vida.
II.96
E ele pairava, demorava-se em meu peito
horas inteiras... Mas passava pelo fundo
de cada abraço como um dissabor do mundo,
o mundo se afrouxava como um laço desfeito,
Alexandria separava aquele leito
do mundo inteiro. Há nas promessas do infecundo
um destacar-se gradual, de moribundo
persuadido de que o nada é mais perfeito.
Há como um nada enguirlandado de mistério
no enlaçamento de metades sem motivo;
é sem futuro e sem passado o beijo estéril;
e, intemporal porque há um único hemisfério
nesse universo, o amor do mármore mais vivo
(a estátua é toda do instantâneo) é redutivo.
II.97
E éramos vivos como os mármores de entalhe,
incrustações da pele lisa na luz rasa
e, confundidos um ao outro como a asa
ao seu vazio, povoávamos um vale
petrificado de esplendores. Ao tocar-lhe
a estátuária magnífica, de brasa
e bronze vivo, eu penetrava numa casa
abandonada... É necessário que a alma fale
a língua morta dos heróis de Queronéia,
para tentar dizer, talvez nesse dialeto
de dois corpos tomados à perfeição da Idéia,
aquele mundo estranho: eterno, longe, ereto.
De estatuária tumultuada, mas alheia.
Cheio de sol, mas como a rosa-do-deserto.


